Revisão de custos, processos, equipes e resultados pode evitar que problemas de gestão comprometam o desempenho dos negócios no próximo ano
Faltam 80 dias para 2027, e empresários brasileiros entram na reta final do ano com decisões que podem influenciar o desempenho de seus negócios. Antes de estabelecer novas metas de faturamento, contratar profissionais ou planejar uma expansão, é necessário avaliar a rentabilidade da operação, identificar desperdícios e corrigir falhas que podem comprometer os resultados do próximo ano.
Para Fernanda Tochetto, psicóloga, empresária e fundadora do Tittanium Club, ecossistema de educação empresarial, um dos principais erros é confundir crescimento do faturamento com evolução do negócio. Com mais de 24 anos de experiência em educação empresarial, ela defende que o planejamento comece pela análise dos resultados já alcançados.
“Planejamento não começa na definição da meta. Começa no diagnóstico. Se o profissional não sabe exatamente de onde está partindo, 2027 pode começar com objetivos novos e os mesmos gargalos de 2026”, afirma Tochetto.
Segundo o Sebrae, o Brasil registrou 3,93 milhões de novos pequenos negócios entre janeiro e agosto de 2026, crescimento de 14,3% em relação ao mesmo período do ano anterior. O aumento da atividade empreendedora, porém, não significa necessariamente maior rentabilidade ou sustentabilidade das operações.
Quando a experiência profissional não é suficiente
A dificuldade de conciliar conhecimento técnico e administração também aparece entre profissionais liberais. O neurocirurgião e empresário Isaac Bertuol, mentor do Tittanium DOC, passou a incorporar finanças, processos, liderança e posicionamento à rotina profissional após mais de duas décadas de atuação na medicina.
Com mais de 10 mil procedimentos realizados e 70 mil pacientes atendidos, Bertuol observa que a formação técnica nem sempre prepara o profissional para administrar uma estrutura empresarial.
“Durante a formação, somos preparados para diagnosticar, tratar e tomar decisões clínicas. Quando o médico assume um consultório, porém, aparecem responsabilidades que não estavam no centro dessa formação: pessoas, custos, processos, planejamento e experiência do paciente. Ignorar essa parte não faz com que ela deixe de existir”, afirma Bertuol.
Embora o exemplo venha da medicina, a dificuldade também está presente no comércio, em empresas de serviços, escritórios e negócios de educação. Para Fernanda, o desafio é transformar a experiência profissional em uma operação organizada, com indicadores, processos e responsabilidades bem definidos.
Cinco decisões para preparar a empresa para 2027
Fernanda aponta cinco medidas que os empresários podem começar a implementar ainda em 2026 para melhorar a gestão e organizar o planejamento do próximo ano.
- Identificar onde a empresa ganha e perde dinheiro
Antes de estabelecer metas, o empresário precisa revisar receita, despesas, margem de lucro, inadimplência e fluxo de caixa. A análise permite identificar produtos, serviços e contratos que movimentam a operação, mas apresentam baixa rentabilidade. O objetivo é definir metas financeiras a partir dos resultados reais do negócio.
- Rever a experiência do cliente e os processos comerciais
Avaliar o atendimento, o tempo de resposta, as oportunidades perdidas e a retenção de clientes ajuda a identificar falhas que afetam o faturamento. A revisão deve incluir desde o primeiro contato até o acompanhamento após a compra ou contratação, com atenção à qualidade da entrega e à continuidade do relacionamento.
- Reduzir a dependência do empresário nas decisões operacionais
Quando todas as decisões dependem do proprietário, a empresa pode encontrar dificuldades para crescer. Documentar processos, distribuir responsabilidades e desenvolver lideranças permite que a operação funcione com maior autonomia, sem comprometer o acompanhamento dos resultados.
“Delegar não significa perder o controle. Significa definir quem faz, como faz, quais limites existem e quais informações precisam chegar ao responsável. Sem processo, o profissional vira o ponto de passagem de praticamente tudo”, explica Tochetto.
- Revisar o planejamento financeiro e tributário
A reforma tributária acrescenta uma questão importante ao planejamento para 2027. O próximo ano marcará uma nova etapa da transição, com mudanças na tributação do consumo. Empresários devem revisar contratos, preços, custos e projeções financeiras, considerando as particularidades de cada regime tributário e buscando orientação contábil especializada.
- Transformar metas de faturamento em indicadores de gestão
Estabelecer que a empresa precisa vender mais não é suficiente para orientar a operação. O planejamento deve incluir metas de margem, produtividade, retenção de clientes, desempenho comercial e eficiência dos processos, com responsáveis e prazos definidos. O acompanhamento periódico permite corrigir desvios antes que eles comprometam os resultados.
Planejar também significa mudar a forma de administrar
Para Isaac Bertuol, incorporar a gestão à rotina profissional permite tomar decisões com maior previsibilidade, sem comprometer a qualidade do trabalho técnico. O princípio também pode ser aplicado a empresários que concentram suas atividades na prestação de serviços e acabam deixando a administração em segundo plano.
“Quando a gestão entra na rotina, o médico consegue olhar para a carreira com mais previsibilidade. A pergunta deixa de ser apenas quanto quero crescer e passa a incluir o que precisa mudar na operação para sustentar esse crescimento”, afirma o neurocirurgião.
Na avaliação de Fernanda, os últimos 80 dias de 2026 devem ser utilizados para estabelecer prioridades, corrigir problemas e definir quais mudanças precisam começar imediatamente. A especialista ressalta que aumentar a receita sem compreender os custos e a estrutura da empresa pode significar apenas mais trabalho, sem melhoria efetiva dos resultados.
“Antes de estabelecer quanto quer faturar em 2027, o profissional precisa entender o que aconteceu com o dinheiro de 2026. Uma meta construída sem essa leitura pode apenas aumentar o volume de trabalho sem melhorar o resultado”, conclui Tochetto.








