Por Marceli Brandenburg, cofundadora do Instituto Ladies in Tech
Quando discutimos a baixa participação feminina na tecnologia, quase sempre começamos pelo fim da história. Falamos sobre o número de mulheres em cargos de liderança, sobre a dificuldade de captar investimentos ou sobre a baixa presença de fundadoras em startups. Esses debates são importantes, mas deixam de lado o momento em que as meninas deixam de acreditar que também podem ocupar esses espaços.
Relatórios recentes da UNESCO mostram que a desigualdade de gênero nas áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (STEM) não pode ser explicada por capacidade ou desempenho escolar. O que influencia essas escolhas, desde cedo, são fatores como estereótipos, expectativas sociais e a falta de referências femininas nesses campos. Ou seja, muito antes da primeira entrevista de emprego ou da criação de uma startup, muitas meninas já passaram a enxergar determinadas carreiras como lugares onde elas não pertencem. Essa constatação ajuda a explicar um cenário que ainda encontramos no ecossistema de inovação.
O problema não começa no acesso ao investimento
Ao longo da minha trajetória como empreendedora, percebi que algumas situações se repetiam com frequência maior do que eu gostaria de admitir. Em uma aceleração de startups, era a única mulher da turma. Em uma banca de avaliação, observei que as poucas empreendedoras presentes recebiam perguntas mais detalhadas e rigorosas do que aquelas dirigidas aos homens. Em outro momento, depois de cobrar uma entrega durante uma reunião, fui questionada se havia brigado com meu marido. Isoladamente, esses episódios poderiam parecer pontuais. Juntos, revelavam um padrão que outras empreendedoras também identificavam em suas próprias trajetórias.
Nenhuma dessas situações explica, sozinha, a baixa presença feminina na tecnologia. Mas todas ajudam a mostrar que estereótipos construídos muito antes da vida profissional continuam presentes, ainda que de forma sutil, quando mulheres chegam aos espaços de inovação e liderança.
Por isso acredito que um dos maiores equívocos do debate atual é imaginar que o desafio começa quando uma mulher decide empreender ou buscar investimento. Na prática, ela chega a esse momento depois de anos convivendo com mensagens explícitas e implícitas sobre quais espaços parecem ou não ter sido feitos para ela.
Referências também são infraestrutura para a inovação
O relatório Global Education Monitoring Report 2024/2025, da UNESCO, chama atenção para o aspecto de que a liderança e representatividade influenciam expectativas, ampliam oportunidades e ajudam a construir ambientes mais inclusivos. Essa reflexão vale também para o empreendedorismo e para a tecnologia.
Quando uma menina cresce vendo mulheres fundando empresas, liderando equipes de desenvolvimento, pesquisando inteligência artificial ou ocupando posições estratégicas em grandes organizações, ela amplia a percepção sobre aquilo que também pode construir para si. Representatividade, portanto, não é apenas uma questão simbólica. Ela influencia escolhas.
Foi justamente essa percepção que me levou, ao lado de outras empreendedoras, a criar o Ladies in Tech. Ao compartilhar experiências, descobrimos que a sensação de isolamento não era individual. Mulheres de diferentes áreas relatavam dificuldades semelhantes para acessar redes de relacionamento, conquistar visibilidade e encontrar referências dentro do ecossistema.
Desde então, acompanhamos centenas de empreendedoras que chegaram à comunidade dizendo que não se sentiam preparadas para apresentar seus negócios, conduzir uma palestra ou assumir posições de maior protagonismo. O conhecimento técnico já existia. O que muitas vezes faltava era um ambiente capaz de validar essa competência e criar oportunidades para que ela fosse reconhecida.
Quando uma pesquisa afirma que é preciso construir sistemas educacionais mais inclusivos e ampliar a presença de mulheres em espaços de liderança, não está tratando apenas de equidade. Está falando sobre desenvolvimento. A inovação depende da diversidade de perspectivas. Quanto mais homogêneos forem os grupos que desenvolvem tecnologias, tomam decisões e criam soluções para a sociedade, maior é o risco de reproduzirmos os mesmos vieses e desigualdades que tentamos superar.
Por isso, ampliar a participação feminina em STEM exige um olhar que vá além da formação técnica. Significa questionar estereótipos, fortalecer referências e criar ambientes onde meninas e mulheres possam permanecer, crescer e liderar.








