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A nova indústria brasileira ganha sotaque amazônico

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*Por Lúcio Flávio de Moraes

Com investimentos em inteligência artificial, automação e energia limpa, o PIM (Polo Industrial de Manaus) busca consolidar um modelo que combina competitividade e preservação ambiental. Durante décadas, a indústria brasileira foi frequentemente associada a um dilema aparentemente insolúvel: crescer economicamente ou preservar o meio ambiente. Em meio à corrida global por tecnologias limpas, inteligência artificial e cadeias produtivas mais resilientes, um polo industrial instalado no coração da Amazônia tenta mostrar que essa dicotomia pode estar ficando para trás.

O PIM, tradicionalmente conhecido pela produção de eletroeletrônicos, motocicletas e bens de informática, vem passando por uma transformação silenciosa. Enquanto empresas ao redor do mundo aceleram investimentos em automação, digitalização e descarbonização, as fábricas instaladas na capital amazonense incorporam tecnologias da chamada Indústria 4.0 e reforçam uma narrativa que ganha força no cenário internacional: a de que competitividade e sustentabilidade podem caminhar juntas.

A busca por maior autonomia produtiva, segurança nas cadeias de suprimentos e redução de emissões recolocou a indústria no centro das políticas econômicas globais. Nesse contexto, a Amazônia deixa de ser vista apenas como um ativo ambiental e passa a ocupar posição estratégica em discussões sobre bioeconomia, transição energética e desenvolvimento sustentável.

Hoje, a digitalização já produz efeitos concretos dentro das fábricas do polo. Sistemas de inteligência artificial, robótica, internet das coisas (IoT) e monitoramento em tempo real estão sendo incorporados às operações para reduzir desperdícios, otimizar o consumo de energia e elevar a produtividade. A transformação acompanha uma tendência observada em centros industriais de países como Alemanha, Estados Unidos e China, nos quais a adoção de tecnologias digitais se tornou um diferencial competitivo decisivo.

Se há poucos anos a agenda ESG ocupava espaço restrito nos relatórios corporativos, hoje ela influencia decisões de investimento, acesso a crédito, exportações e reputação de empresas. A pressão de consumidores, investidores e governos por cadeias produtivas mais transparentes tornou critérios como eficiência energética, gestão de resíduos, rastreabilidade ambiental e redução de emissões elementos centrais das estratégias empresariais.

No caso de Manaus, a discussão ganha contornos particulares. O modelo econômico da Zona Franca é frequentemente citado por seus defensores como um instrumento de preservação ambiental ao criar empregos formais e atividade econômica em uma região onde a expansão de atividades predatórias continua sendo uma ameaça.

Dados frequentemente utilizados por entidades do setor indicam que o Estado do Amazonas mantém mais de 97% de sua cobertura florestal preservada, argumento que reforça a defesa do polo industrial como alternativa econômica compatível com a conservação da floresta.

A transformação tecnológica também traz desafios. À medida que a automação avança, aumenta a demanda por profissionais qualificados em áreas como inteligência artificial, análise de dados, manutenção avançada, robótica e programação industrial. A escassez de trabalhadores com competências digitais figura entre os principais obstáculos para a adoção em larga escala das tecnologias da Indústria 4.0 em economias emergentes.

Enquanto o mundo busca novas rotas para reduzir emissões e construir uma economia de baixo carbono, a Amazônia passa a concentrar interesses que vão além da preservação ambiental. A combinação entre biodiversidade, potencial para bioeconomia, disponibilidade de minerais estratégicos e uma matriz energética relativamente limpa colocam o Brasil em posição privilegiada para participar dessa nova etapa da industrialização global.

A questão, segundo analistas do setor, será transformar essas vantagens naturais em ganhos concretos de competitividade por meio de investimentos em infraestrutura, inovação, conectividade e estabilidade regulatória. Nesse cenário, Manaus surge como um laboratório de uma questão que tende a ganhar relevância nos próximos anos: é possível desenvolver uma indústria moderna, tecnológica e global sem renunciar à preservação ambiental?

Para os defensores do modelo amazônico, a resposta já está em operação.

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