Tecnologia

Abertura do mercado livre deve transformar comercializadoras em plataformas tecnológicas de energia, diz fundador da Lead Energy

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Comparável ao avanço das fintechs no sistema financeiro, nova fase do setor elétrico tende a premiar empresas com infraestrutura digital e inteligência operacional

A ampliação do mercado livre de energia no Brasil pode desencadear uma transformação estrutural no setor elétrico semelhante à digitalização observada no sistema financeiro e nas telecomunicações nas últimas décadas. A avaliação é de Raphael Ruffato, fundador e CEO da Lead Energy, empresa especializada em soluções tecnológicas para consumidores do mercado livre de energia.

Segundo Ruffato, o atual momento do setor, marcado por preços elevados de energia, redução da liquidez entre comercializadoras e desaceleração no volume de migrações, tem sido interpretado por parte do mercado como uma crise do varejo energético. 

Na prática o executivo com mais de 15 anos de experiência no setor de energia afirma que trata-se de uma transição de modelo econômico. “O que está acontecendo hoje no mercado de energia é parecido com o que os bancos tradicionais viveram antes da ascensão das fintechs. O produto continua existindo, mas a forma de operar mudou completamente”, afirma.

Nos últimos meses, diversas comercializadoras reduziram sua atuação no varejo diante do aumento do custo comercial, margens mais comprimidas e menor atratividade econômica para novos consumidores livres. O movimento ocorre justamente no período que antecede a expansão gradual da abertura do mercado para consumidores de menor porte, prevista na agenda de modernização do setor elétrico brasileiro.

Na visão do executivo, a abertura ampliará significativamente o universo de clientes elegíveis, mas também elevará o nível de competição operacional. “Quando milhões de consumidores tiverem a oportunidade de escolher seu fornecedor, energia deixa de ser um negócio de relacionamento comercial intensivo e passa a ser um negócio de escala, tecnologia e experiência do cliente”, explica.

Ruffato compara o cenário ao que ocorreu no mercado financeiro brasileiro, quando bancos digitais passaram a operar com estruturas mais leves, automação intensiva e custo marginal reduzido, alterando a dinâmica competitiva do setor. “O vencedor do próximo ciclo não será necessariamente quem compra melhor energia, mas quem conseguir operar milhares ou milhões de contratos com inteligência artificial, automação e análise contínua de dados”, afirma.

Segundo ele, a comercialização de energia tende a migrar de um modelo centrado em trading para um modelo de plataforma, no qual serviços digitais, gestão automatizada de consumo, precificação dinâmica e relacionamento contínuo com o cliente passam a concentrar a geração de valor.

Movimento internacional 

Movimentos semelhantes já foram observados em mercados liberalizados como Reino Unido, Austrália e partes dos Estados Unidos, onde novos entrantes digitais ganharam participação relevante ao priorizar tecnologia e eficiência operacional sobre estruturas tradicionais de comercialização. Para Ruffato, o mercado livre brasileiro ainda está no início dessa transformação. “A abertura regulatória não cria apenas mais consumidores livres. Ela redefine quem consegue atendê-los de forma sustentável”, explica.

Empresas que interpretarem o atual ciclo apenas sob a ótica da retração comercial podem perder competitividade quando o mercado atingir escala massiva. Para Ruffato: “Resultados de curto prazo não necessariamente indicam enfraquecimento do setor. Muitas vezes sinalizam apenas que o modelo antigo deixou de funcionar”.

Fundada com foco na digitalização da jornada do consumidor no mercado livre, a Lead Energy aposta na construção de infraestrutura tecnológica e automação operacional como preparação para a próxima fase do setor elétrico.  O especialista acredita que o setor de energia caminha para uma convergência entre infraestrutura energética e tecnologia, tendência que deve atrair maior interesse de investidores institucionais e fundos especializados em tecnologia e transição energética nos próximos anos. “O mercado livre de energia está deixando de ser apenas um mercado elétrico. Ele está se tornando um mercado de tecnologia aplicada à energia”, completa.

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