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Abertura do mercado pode levar liberdade de contratação a milhões de consumidores

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Perfil de consumo, sazonalidade e modulação ganham peso nas ofertas para um público que hoje está pouco habituado a negociar eletricidade

A entrada de consumidores menores no mercado livre deve mudar não apenas o tamanho, mas também o formato dos contratos de energia. Com um público mais amplo passando a escolher como contratar eletricidade, comercializadores terão de considerar características como horário de consumo, sazonalidade e modulação — variáveis que hoje fazem parte principalmente da gestão de consumidores maiores.

O movimento já aparece no ritmo das migrações. No primeiro trimestre de 2026, mais de 4,8 mil consumidores migraram para o ambiente livre, sendo que 70% utilizaram o modelo simplificado de migração, criado para tornar o processo mais ágil e automatizado.

A expansão coloca um novo desafio para os comercializadores: desenvolver produtos adequados a perfis de consumo muito diferentes. Uma empresa que concentra sua demanda em determinados horários, por exemplo, pode ter necessidades distintas de outra que mantém um consumo mais constante ou apresenta forte variação ao longo do ano.

Para Alexandre Becker, Coordenador de Projetos Especiais da Ludfor, essa mudança também deve alterar a forma como a energia será precificada para os consumidores de baixa tensão. “O produto para para o consumidor BT tende a ser diferente do produto atual do ACL de MT/AT (média e alta tensão). Hoje já existe a necessidade de precificação, tanto no ACR como no ACL de um preço horário, que é algo que esta classe ainda não está acostumada. Então a modulação e sazonalidade serão características a serem observadas pelos varejistas que pretendem atender a este público.”

Na prática, o preço da energia será apenas uma parte da comparação. Encargos, tarifas de uso da rede, tributos e eventuais benefícios tarifários também precisam entrar no cálculo. As condições do contrato podem alterar o resultado: prazo, volume contratado, flexibilidade, indexadores, penalidades, exposição ao mercado de curto prazo e regras de fidelidade são alguns dos pontos que deverão ser avaliados.

A escolha do comercializador também ganha peso. Solidez financeira, capacidade operacional e gestão de risco passam a ser critérios relevantes para consumidores que, em muitos casos, não têm estrutura própria para acompanhar as oscilações do mercado.

A mudança ocorre em paralelo à expansão da geração distribuída, que já colocou o consumidor em uma posição mais ativa no setor elétrico. Ao produzir parte da própria energia, empresas e consumidores passaram a administrar uma parcela maior de sua relação com a eletricidade. A possibilidade de escolher o fornecedor amplia essa participação para a contratação.

Nesse cenário, a informação passa a ser um elemento importante da decisão. A CCEE deverá disponibilizar uma plataforma de comparação de preços e informações sobre comercializadores, mas a análise das ofertas precisará ir além do valor apresentado.

“A CCEE deverá disponibilizar uma plataforma de comparação de preços e informações sobre comercializadores. O que será necessário comparar entre as ofertas para evitar que o consumidor escolha apenas pelo menor preço?”, complementa o executivo. 

Para quem pretende migrar, o ponto central será entender o próprio consumo antes de comparar propostas. Horários de maior demanda, variações sazonais e volume necessário ao longo do contrato podem determinar se uma oferta aparentemente mais barata será, de fato, a mais adequada.

A ampliação do mercado, portanto, não deve apenas aumentar o número de consumidores aptos a contratar energia livre. Ela tende a mudar o próprio produto oferecido pelos comercializadores, que precisarão adaptar contratos a uma base de clientes mais pulverizada e com perfis de consumo muito diferentes.

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