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Aceleradoras, modismos e métricas de vaidade: o perigoso desvio do empreendedorismo

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Por Paulo Motta

Nos últimos anos, o ecossistema de inovação brasileiro viveu uma verdadeira febre de “aceleração”. Startups eram “incubadas”, “pitchadas”, “mentoreadas” e corriam em ritmo frenético, como se o simples fato de participar de um programa de crescimento fosse um passaporte para o sucesso. O problema é que no meio dessa corrida por holofotes, muita gente esqueceu o essencial, que é construir negócios sólidos, com meta real e resultados sustentáveis.

Boa parte das aceleradoras se transformou em vitrines de modismos. Há programas que prometem “escala exponencial” e “disruptura”, mas que, na prática oferecem pouco mais do que palestras motivacionais e um networking viciado entre os mesmos players. Pior é vender a ideia de que o empreendedor precisa caber num molde como o da métrica “hockey stick” ou do valuation inflado. O que deveria ser um espaço de aprendizado virou um palco de vaidade.

Essas métricas de fatuidade, que incluem número de seguidores, downloads, visitas ou pitch decks bem produzidos, substituíram indicadores reais de desempenho. Quantos negócios sobrevivem após o glamour das bancadas de investidores? Quantos empregos são gerados? Quantas dores do mercado são realmente resolvidas? O que sobra é a espuma de uma cultura que premia a aparência de crescimento e não a consistência.

É preciso questionar o próprio conceito de expansão. Empreender é mais maratona do que corrida de 100 metros. É lidar com erros, reconstruções, sazonalidade e capital humano. É equilibrar meta e lucro, inovação e pragmatismo. É ter paciência para crescer sem queimar etapas… e isso é algo que os modismos não sabem ensinar.

Enquanto isso, muitos empreendedores sérios, que não têm fit com o hype, ficam de fora do radar. São empresas com fluxo de caixa positivo, produtos relevantes, base de clientes fiéis e crescimento constante. Negócios que não precisam de pirotecnia para dar certo. Esses, sim, merecem os holofotes.

O sistema precisa amadurecer. Aceleradoras devem voltar ao papel original, que é oferecer conhecimento, conexões genuínas e apoio estratégico e não simplesmente colecionar logotipos em seu portfólio. O empreendedorismo brasileiro só se tornará robusto quando deixarmos de aferir sucesso em curtidas e passarmos a medi-lo em resultados. Afinal, crescimento sustentável é aquele que resiste ao tempo e não ao próximo modismo.

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