Informações

Autonomia hídrica não afasta responsabilidade regulatória 

4 Mins read

Reuso, poços e captação pluvial são oportunidades reais. Mas sem estudos, gestão de risco e protocolo, viram passivo

Vivian Serpa é engenheira ambiental e atua na We Save em projetos de conformidade legal, gestão de riscos ambientais, e soluções voltadas à eficiência hídrica.

O Brasil detém 12% da água doce superficial do planeta e, ainda assim, grandes empreendimentos urbanos travam batalhas cotidianas por abastecimento seguro e previsível. A resposta do setor privado tem sido buscar autonomia hídrica — reuso de efluentes, poços artesianos, captação de água de chuva. O problema é que essa autonomia, quando mal planejada, não é autônoma: é um risco disfarçado de solução.

Deliberação ARSESP nº 1.796, de 30 de abril de 2026, ao tratar da definição de Grandes Usuários e das regras para celebração e fiscalização de Programas Comerciais e contratos de abastecimento de água e esgotamento sanitário, traz um ponto ambiental relevante: a necessidade de que esses programas sejam embasados em estudos técnicos, considerando, entre outros aspectos, a disponibilidade de tratamento, a reservação de mananciais e a prevenção de impactos sobre o abastecimento humano e os serviços essenciais.

Em um cenário de pressão sobre os recursos hídricos, alternativas como reuso de água, captação subterrânea, aproveitamento de água de chuva e sistemas próprios de tratamento de efluentes passaram a representar oportunidades estratégicas. Quando bem planejadas, essas soluções podem trazer benefícios importantes, como redução da dependência da concessionária, maior previsibilidade no abastecimento, economia nas despesas com água e esgoto, melhor aproveitamento dos recursos disponíveis e fortalecimento das práticas ESG do empreendimento. Segundo estimativas do Ministério do Desenvolvimento Regional, o reuso de efluentes sanitários tratados no Brasil representa menos de 15% do potencial de curto e médio prazo já identificado — o que revela tanto a oportunidade quanto a imaturidade do setor.

O reuso de água, por exemplo, pode contribuir para reduzir a demanda por água potável em usos menos nobres, como descargas sanitárias e sistemas de climatização. Além do ganho ambiental, essa prática pode gerar eficiência econômica e demonstrar compromisso efetivo com a conservação dos recursos hídricos.

A captação de água de chuva, por sua vez, pode ser uma alternativa complementar interessante para determinados usos operacionais, especialmente em empreendimentos com grandes áreas de cobertura. Já a captação subterrânea, quando tecnicamente viável e regularmente autorizada, pode oferecer maior autonomia hídrica e reduzir a exposição do empreendimento a variações tarifárias ou restrições de abastecimento.

No entanto, essas soluções não podem ser adotadas apenas pelo apelo positivo que trazem à imagem institucional do empreendimento. Cada alternativa precisa ser avaliada com base em estudos técnicos, análise de risco, viabilidade econômica, segurança operacional e atendimento às exigências legais aplicáveis.

Um shopping center que decide tratar e polir efluentes sanitários para reutilização em seu sistema de climatização, por exemplo, precisa considerar muito mais do que a redução potencial no consumo de água potável. É necessário avaliar o investimento em tratamento, o nível de qualidade exigido para o uso pretendido, os riscos aos usuários, a proteção dos equipamentos, a necessidade de monitoramento contínuo e a capacidade da equipe operacional de manter o sistema funcionando com segurança. Sem esse conjunto de garantias, o que parece uma iniciativa ESG pode virar um passivo sanitário.

O mesmo raciocínio se aplica à captação de água subterrânea para consumo humano. Embora possa representar uma alternativa à dependência exclusiva da concessionária, essa solução exige o cumprimento de obrigações legais específicas, incluindo os padrões de potabilidade e os controles previstos na Portaria GM/MS nº 888/2021. O não atendimento a essas obrigações pode expor o empreendimento a autuações, sanções administrativas e riscos reputacionais.

Além disso, em grandes centros urbanos, a utilização de água subterrânea demanda atenção redobrada. A proximidade com postos de combustíveis, áreas industriais, passivos ambientais ou antigos vazamentos de substâncias químicas pode comprometer a qualidade da água captada. Uma alternativa que inicialmente parece representar economia pode, sem diagnóstico adequado, se transformar em um problema técnico, regulatório e ambiental de grandes proporções.

Por isso, a adoção de fontes alternativas de abastecimento deve ser conduzida com responsabilidade. Não basta identificar uma oportunidade de redução de custo. É preciso entender o que será necessário operar, controlar, monitorar, comprovar e corrigir ao longo do tempo. A gestão de riscos precisa estar presente desde a concepção do projeto até sua rotina operacional.

Essa equação ganha complexidade adicional em empreendimentos com grande circulação de pessoas — shopping centers, hospitais, centros logísticos, hotéis, indústrias e condomínios comerciais. Nesses ambientes, qualquer falha na qualidade da água, no controle de efluentes ou na comunicação com usuários pode gerar denúncias, questionamentos de órgãos públicos e impactos à imagem do empreendimento. O risco não é apenas operacional: é institucional.

Há também uma dimensão regulatória e coletiva que não pode ser desconsiderada. A adoção de fontes alternativas por grandes usuários representa uma oportunidade importante para ampliar a eficiência hídrica e reduzir a dependência dos sistemas públicos, especialmente quando estruturada com base técnica, segurança operacional e aderência legal. Ao mesmo tempo, essa transição deve ser conduzida de forma planejada, para que seus efeitos sobre o sistema de saneamento sejam adequadamente avaliados. Assim, a autonomia hídrica do setor privado deve ser vista como uma estratégia legítima e potencialmente benéfica, desde que analisada caso a caso, com equilíbrio entre viabilidade econômica, sustentabilidade ambiental, segurança jurídica e interesse coletivo.

Nesse contexto, os contratos com grandes usuários também passam a ter papel estratégico. Eles podem oferecer maior previsibilidade econômica e segurança regulatória para o empreendimento, reduzindo a pressão imediata por soluções alternativas mal estruturadas. Por outro lado, a perda dessas condições comerciais pode elevar significativamente os custos e levar o usuário a considerar a migração para fontes próprias.

O que falta, portanto, não é tecnologia. É protocolo. O setor precisa de critérios claros para avaliação e certificação de sistemas alternativos de abastecimento, de mecanismos regulatórios que incentivem o reuso bem-feito e penalizem o improviso, e de uma cultura de due diligence hídrica que seja tão rigorosa quanto a due diligence financeira já exigida de grandes empreendimentos.

Gerir água com seriedade é, antes de tudo, reconhecer que ela não é um ativo de comunicação. É um recurso finito — e cada decisão técnica equivocada cobra seu preço, com ou sem certificação ESG. 

Related posts
Informações

Com Mike Tyson na campanha global, Rain Trade lança plataforma que permite criar mercados sobre qualquer tema

3 Mins read
Construída sobre o Rain Protocol, a plataforma permite que qualquer usuário crie mercados públicos ou privados, em qualquer idioma, e participe de…
Informações

Nova lei de entregas acelera adoção de smart lockers e transforma gestão de condomínios

2 Mins read
Com entregadores desobrigados de subir até os apartamentos, condomínios recorrem à automação para reduzir filas, atritos e riscos operacionais nas portarias A…
Informações

Alta temporada pressiona fretes com demanda acima da capacidade na América Latina

2 Mins read
Mercado de cargas latinoamericano antecipa alta temporada com restrições de capacidade; avanços na conectividade regional ainda não alivia pressão sobre espaço disponível…