Investimentos

Bootstrap Growth: como crescer sem investidor na prática

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Por Kassio Seefeld, CEO da TruckPag*

Em abril de 2019, três sócios fizeram a primeira transação de uma empresa que ninguém conhecia. Sem investidor. Sem pitch deck. Sem rodada seed. Sem mentor com cheque. Sem aceleradora. Sem nada além de uma ideia, um mercado enorme e a decisão de construir com o próprio dinheiro.

Bootstrap growth é o nome bonito para acordar todo dia sabendo que o combustível da sua empresa vem do seu cliente, não de um fundo. Significa crescer uma companhia com o dinheiro que a própria operação gera.

Não tem investidor definindo sua rota. Não tem board pedindo relatório mensal. Não tem rodada de captação que te obriga a crescer 10x em 18 meses para justificar o valuation que você mesmo inflou. Tem você, seu time e seu cliente. Trabalhar no modelo bootstrap é uma escolha estratégica. E como toda escolha, tem consequências.

A minha decisão de ser foi consciente desde o primeiro dia. Não foi por falta de opção. Foi porque olhamos pro caminho com investidor e para o caminho sem investidor, e escolhemos o que fazia sentido pra empresa que queríamos construir em 50 anos.

Por que escolhemos não captar (e o que isso custou)?

A pergunta que mais ouço é: “Mas por quê?”. Como se fosse uma anomalia. Como se o caminho natural de qualquer empresa de tecnologia fosse passar por seed, Series A, B, C e, com sorte, um IPO. Eu entendo. O ecossistema inteiro de startups foi construído em cima dessa narrativa. A resposta curta é que escolhemos não captar porque queríamos liberdade de decisão.

A resposta longa é mais complexa. Quando eu e meus sócios começamos a empresa, sabíamos que estávamos entrando num mercado enorme. O transporte rodoviário move o Brasil. Segundo a Mordor Intelligence, o transporte rodoviário de cargas responde por mais de 66% do mercado brasileiro de logística, sendo o principal modo de movimentação de mercadorias no país. E a maioria dos transportadores ainda operava no caderninho, na confiança, no telefone. A oportunidade era clara e captar teria acelerado muita coisa. Mas também teria mudado o jogo.

Quando você aceita capital externo, você aceita um relógio. E esse relógio não é o seu. É do investidor. Ele precisa de retorno em cinco ou sete anos, precisa que você cresça rápido o suficiente para justificar a aposta, e se o seu ritmo natural não é o ritmo dele, alguém vai ter que ceder. Nós decidimos que não queríamos ceder.

Crescer devagar no começo foi o que nos permitiu ter solidez. Cada decisão de contratação pesava. Cada produto novo precisava se pagar. E cada cliente importava de verdade. Quando você é bootstrap, você não tem o luxo de errar caro. E isso, paradoxalmente, é uma vantagem. Porque te obriga a ser bom no que faz. Quando o combustível da empresa é o cliente, e não um fundo, você para de crescer pra impressionar e começa a crescer pra durar. 

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