Finanças

Como o setor privado pode salvar as contas públicas sem aprovar reformas

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Por Fabiano Coutinho*

Ao longo de mais de 25 anos atuando como gestor de procurement, liderando projetos no Brasil e no exterior, seja na indústria, em utilities, no mercado de consultoria ou à frente de startups investidas pelo setor financeiro, aprendi que a sobrevivência de qualquer organização depende do rigor com seus custos. Nas corporações, cada centavo economizado na gestão de suprimentos vai direto para o resultado e garante o retorno dos acionistas. Como cidadãos, somos os verdadeiros “acionistas” do Estado e temos o direito de exigir essa mesma disciplina na administração do dinheiro público.

O Brasil vive encarcerado em um dilema fiscal crônico: nossa dívida líquida saltou de 33% para quase 67% do PIB nas últimas três décadas. Com cerca de 90% do orçamento engessado por despesas obrigatórias, o debate político paralisou-se na tentativa de aprovar reformas constitucionais complexas. O que raramente se discute é que existe uma janela de oportunidade de centenas de bilhões de reais que depende puramente de decisão executiva.

Essa oportunidade está na gestão das compras governamentais, que movimentam cerca de 12,5% do PIB, aproximadamente R$ 1,6 trilhão por ano entre União, estados e municípios. Se fosse uma corporação, o setor de compras públicas brasileiro estaria posicionado entre as trinta maiores economias do planeta.

Ao analisar dados consolidados do Banco Central do Brasil, do Tesouro Nacional e do Portal da Transparência, o diagnóstico revela gargalos inaceitáveis para a governança corporativa privada. O dado mais estarrecedor é que, entre 2020 e 2023, de 42% a 52% de tudo o que o governo federal contratou ocorreu sem qualquer disputa competitiva, sob as modalidades de dispensa ou inexigibilidade de licitação. No ambiente empresarial, ter metade do orçamento escapando da concorrência direta representa uma falha gravíssima de controle.

A aplicação de metodologias maduras de Spend & Procurement Management, como inteligência de mercado, leilões reversos e soluções analíticas suportadas por inteligência artificial, tem o poder de transformar essa realidade. A experiência internacional e a prática de mercado mostram que a profissionalização do setor de compras gera ganhos consistentes entre 8% e 18% sobre o gasto endereçável.

Ajustando essa fatia que hoje não passa por concorrência, o potencial de economia pode atingir até R$ 380 bilhões por ano. Trata-se de um montante superior ao orçamento anual somado do Bolsa Família e do Benefício de Prestação Continuada, alcançado sem cortar direitos sociais, demitir servidores ou elevar impostos.

Modelagens aplicadas para os próximos 12 anos mostram que essa eficiência operacional é capaz de conter a escalada da dívida pública, estabilizando a relação dívida/PIB em torno de 78% em 2038, contra os 94% projetados no cenário sem mudanças. Trata-se de uma diferença de 16 pontos do PIB, ou R$ 2 trilhões preservados no caixa do país no período.

A discussão econômica nacional não precisa ficar refém de guerras ideológicas ou da busca por novos impostos. O maior potencial de oxigenação fiscal do Brasil está ao alcance da gestão. Profissionalizar as compras públicas com tecnologia e processos modernos é o compromisso mais urgente que os governantes podem assumir com a sociedade.

**Fabiano é executivo com mais de 25 anos de experiência em compras estratégicas e atualmente atua como Diretor de Business Development para a América Sul na GEP

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