[radio_player id="1"]
Informações

Curtailment, leilões e data centers: o novo cenário do setor elétrico brasileiro

5 Mins read

Por Maria Guilhermina, Head de Energia da Tractebel Brasil, Chile e Canadá

O setor elétrico brasileiro passar por um momento paradoxal, ao mesmo tempo em que a geração de energia renovável cresce, existe o risco cada vez maior de ser necessário acionar as usinas termelétricas – mais caras e mais poluentes – para suprir a demanda energética. Esse cenário já ocorreu em outubro de 2025, e no ano passado 20,6% da energia solar e eólica gerada no país não pode ser utilizada, segundo dados do ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico).  

A perda da energia ocorre devido ao curtailment (restrição de geração), termo que ficou conhecido em 2025, devido aos cortes que o ONS precisou fazer para preservar a segurança e a confiabilidade do SIN (Sistema Interligado Nacional).  

Apesar de sempre ter feito parte da operação do sistema, os cortes em anos anteriores foram bem inferiores – 9,3% em 2024, 3,6% em 2023, 0,5% em 2022 e 0,1% em 2021 – o que não gerou atenção ao tema. O debate fez com que o ONS apresentasse, em outubro de 2025, uma área especial em seu site para dar mais transparência sobre a necessidade do processo de curtailment.  

Crescimento acelerado

A restrição de geração acontece com mais frequência pois a geração da energia solar e eólica cresceu no Brasil devido a fatores como a evolução tecnológica, a queda no custo dos equipamentos e o fortalecimento das políticas de incentivo. Segundo o Balanço Energético Nacional 2025 (BEN 2025), da EPE (Empresa de Pesquisa Energética), as fontes solar e eólica já representam juntas 23,7% da geração de eletricidade no país. Em 2024, a energia solar cresceu 39,6% em comparação com o ano anterior, enquanto a eólica avançou 12,4%, no mesmo período, e a tendência é o crescimento dessas fontes na matriz energética nacional.

Além das grandes usinas eólicas e fotovoltaicas, a tecnologia e as políticas de incentivo contribuíram para o desenvolvimento do mercado de geração distribuída, onde o consumidor também é gerador. De acordo com dados da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar), o Brasil já tem mais de 59 gigawatts (GW) de potência instalada de geração de energia solar. Sendo que a maior parte da geração, 37,6 GW é originária de sistemas de geração distribuída, instalados em telhados ou quintais de mais de cinco milhões de imóveis residenciais, comerciais ou propriedades rurais.  

O crescimento da geração distribuída trouxe benefícios aos consumidores e até para o meio ambiente. Segundo a Absolar, a energia fotovoltaica já evitou a emissão de cerca de 66,6 milhões de toneladas de CO2 na geração de eletricidade no Brasil e desde 2012 o país recebeu mais de R$ 251,1 bilhões em novos investimentos e criou mais de 1,6 milhão de empregos.  

A evolução da geração de energia renovável é positiva para que o Brasil possa ter uma matriz cada vez mais sustentável e segundo o Caderno de Demanda e Eficiência Energética do Plano Decenal de Expansão de Energia 2034, da EPE, a demanda energética continuará crescendo, com projeção de um aumento médio anual de 2,1% no consumo de energia até 2034.  

A grande oferta de energia sustentável é um diferencial competitivo e é um dos fatores que colocam o Brasil no mapa global para receber data centers de inteligência artificial. O uso integral da energia renovável na operação dos data centers é uma das condições previstas no Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center (REDATA), que prevê a suspensão de tributos como PIS/Pasep, Cofins, IPI e Imposto de Importação para a instalação de data centers no país, o que aumentaria a soberania digital, além de promover a geração de empregos diretos e indiretos.  

Infraestrutura precisa acompanhar a geração

O crescimento da oferta de energia limpa, por meio de plantas eólicas e solares, é importante para atender as demandas atuais e futuras. Mas esse crescimento precisa ser acompanhado por investimentos em infraestrutura e ampliação do SIN para que a energia seja distribuída dos locais de produção aos locais de consumo. Outra forma de mitigar a necessidade do curtailment é armazenar a energia gerada quando há maior incidência do sol e de ventos, além da energia não usada nos fins de semana quando há menor demanda do setor produtivo.  

Para que isso ocorra a pauta regulatória precisa caminhar em sintonia e os poderes executivo, legislativo e os órgãos reguladores precisam ter uma visão sobre todo o setor energético, da geração passando pela distribuição até chegar ao consumo. A perspectiva é que a pauta regulatória será movimentada nos próximos meses.  

O primeiro grande tema é a aprovação em definitivo do REDATA, primeiramente viabilizado por meio da Medida Provisória (MP) nº 1.318, de 2025, e neste início de ano apresentado como o Projeto de Lei 278/2026 e aprovado, no início de fevereiro, em regime de urgência pelo poder legislativo.

O Ministério de Minas e Energia (MME) também confirmou que diferente do que ocorreu no ano passado, em 2026 devem ser realizados dois leilões de transmissão. O primeiro previsto para 27 de março poderá ter até 10 Lotes e é destinado a construção e manutenção de 888 km em linhas de transmissão, distribuídos em 11 estados: Bahia, Ceará, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Pará, Paraná, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Santa Catarina, São Paulo e Sergipe.  

O leilão previsto para o segundo semestre ainda não tem os Lotes definidos, mas a previsão é superar R$ 20 bilhões em aportes para mais de 4.000 km de novas linhas. A realização, novamente, de dois leilões por ano ajuda a diluir riscos, pode atrair mais investidores a cada rodada e dar mais fôlego para as empresas prepararem as propostas, planejarem o capital e a formação de consórcios.

Em abril, está previsto um leilão inédito, dedicado aos sistemas de armazenamento de energia em baterias (BESS). Este leilão vai permitir a instalação e operação de grandes sistemas de baterias capazes de armazenar a energia elétrica ampliando o aproveitamento das fontes renováveis intermitentes, especialmente solar e eólica, para posterior despacho nos momentos de maior demanda, aumentando a flexibilidade e a confiabilidade do SIN.  

A expansão do sistema de transmissão e o armazenamento da energia gerada são as principais formas de reduzir as perdas e assegurar que a energia gerada – cada vez mais limpa – esteja disponível em todo país com confiabilidade e custo acessível. O sucesso contínuo dessa empreitada pode consolidar a posição do Brasil como um dos destinos mais atrativos do mundo para investimentos em infraestrutura energética e atrair outros tipos de investimento que demandam energia limpa a preços competitivos.

Related posts
InformaçõesVendas

Pix por aproximação completa um ano com o desafio de converter potencial em adesão em massa

3 Mins read
Embora represente apenas 0,01% das transações totais, modalidade de pagamento via NFC apresenta crescimento exponencial em valores movimentados e aposta na conveniência…
Informações

Mulheres dedicam mais de mil horas por ano ao trabalho doméstico não remunerado

3 Mins read
Pesquisa da PUCPR revela impacto socioeconômico do trabalho de cuidado familiar realizado por mulheres brasileiras Um estudo conduzido por pesquisadoras da Pontifícia Universidade Católica do Paraná…
InformaçõesVendas

Vendas de vitaminas e suplementos crescem 42% em faturamento em um ano no Brasil  

2 Mins read
Levantamento da Interplayers aponta avanço consistente da categoria, com destaque para multivitamínicos e diferenças relevantes entre estados e regiões   O mercado brasileiro de vitaminas…
Fique por dentro das novidades

[wpforms id="39603"]

Se inscrevendo em nossa newsletter você ganha benefícios surpreendentes.