Segundo especialista, preços pressionados, avanço do mercado livre e desafios climáticos devem marcar o setor neste ano no Brasil e no mundo
O setor de energia começa o ano sob um cenário de maior complexidade no Brasil e no exterior. Condições hidrológicas desfavoráveis, pressão sobre os preços, intensificação dos efeitos das mudanças climáticas e o avanço estrutural da abertura do mercado livre desenham um ambiente de maior volatilidade, ao mesmo tempo em que ampliam oportunidades para inovação, novos modelos de negócio e investimentos em tecnologia e gestão energética. Segundo o especialista Lucas Paiva, COO e cofundador da Lead Energy, o ano deve ser marcado pela convivência entre desafios de curto prazo e transformações estruturais que tendem a redefinir o setor nos próximos anos.
Com condições hidrológicas abaixo da média no Brasil, a situação atual pressiona os preços da energia elétrica e aumenta a probabilidade de acionamento de bandeiras tarifárias mais elevadas, especialmente no mercado regulado. “Esse contexto eleva a volatilidade e reforça a necessidade de estratégias de mitigação de custos por parte dos consumidores e dos agentes do setor”, afirma Paiva.
Ao mesmo tempo, o setor elétrico brasileiro passa por uma transformação estrutural impulsionada pelo avanço do cronograma de abertura total do mercado livre. A migração dos primeiros consumidores de baixa tensão, prevista para iniciar em dezembro de 2027, já movimenta empresas e investidores. “Desde já, os agentes se mobilizam para capturar esse novo mercado, o que tende a impulsionar movimentos de consolidação, entrada de novos participantes e investimentos relevantes em comercialização, tecnologia e serviços ao consumidor”, explica o executivo.
Novas regras em construção
Ao longo de 2026, o processo de abertura do mercado deve ganhar contornos mais claros. A expectativa é de que ocorram as primeiras ações governamentais de comunicação direta ao consumidor, além do detalhamento das regras operacionais, comerciais e de proteção aplicáveis à nova realidade do setor.
Para Paiva, o período será de adaptação. “No curto prazo, convivem pressões de custo; no médio e longo prazos, a tendência é de maior competição, inovação e sofisticação da relação entre consumidores e fornecedores de energia”, afirma.
Cenário internacional
No cenário global, o setor de energia segue fortemente influenciado pela geopolítica do petróleo. Novos focos de incerteza, como a intervenção americana na Venezuela e a instabilidade no Irã, elevam a volatilidade e o risco percebido pelos mercados. “Mesmo quando o impacto direto sobre a oferta global é limitado, os efeitos sobre preços e expectativas são relevantes”, avalia Paiva.
Paralelamente, os investimentos em energias renováveis continuam em expansão, impulsionados pela busca por segurança energética, redução da dependência de combustíveis fósseis e estímulo ao crescimento econômico. Nesse contexto, os sistemas de armazenamento de energia ganham protagonismo. “Com preços elevados, a viabilidade econômica do armazenamento em larga escala, especialmente com baterias, torna-se cada vez mais concreta, redesenhando a lógica dos mercados”, afirma.
Outro fator relevante para 2026 é o crescimento de grandes data centers voltados ao processamento de dados de inteligência artificial, o que exige expansão da matriz elétrica em diferentes regiões do mundo. Além disso, os veículos elétricos mantêm trajetória de crescimento consistente, inclusive em mercados menos desenvolvidos. “Esses fatores combinados tendem a inaugurar um novo ciclo de crescimento do consumo energético mundial”, destaca o executivo.
Mudanças climáticas
Os impactos das mudanças climáticas devem se intensificar em 2026, com maior frequência e severidade de eventos extremos, como secas prolongadas, enchentes, tempestades e ventos intensos. “Apagões urbanos de grande escala e eventos recentes evidenciaram a vulnerabilidade da infraestrutura elétrica, especialmente nas redes de distribuição”, observa Paiva.
Na geração, a variabilidade climática afeta a previsibilidade hidrológica e eólica, aumentando a necessidade de despacho térmico e elevando custos. Já na distribuição, os danos físicos à rede geram interrupções prolongadas e altos custos de recomposição, refletindo diretamente nas tarifas e na volatilidade dos preços.
As fontes renováveis não hídricas, especialmente solar e eólica, seguem avançando devido à competitividade de custos e rapidez de implantação. O gás natural mantém relevância como fonte de flexibilidade, sobretudo em períodos de estresse hidrológico. Já os sistemas de armazenamento começam a se consolidar como peça-chave. “O protagonismo estará menos concentrado em uma única fonte e mais na combinação eficiente entre geração, armazenamento e gestão da demanda”, afirma o executivo.








