Mais alternativas de trabalho mudam a relação dos profissionais com as empresas em um mercado que também enfrenta dificuldade para contratar e reter
Cerca de 5 milhões de trabalhadores que deixaram empregos formais entre janeiro de 2022 e março de 2026 passaram a atuar como pessoa jurídica no mesmo mês ou no mês seguinte ao desligamento, segundo levantamento divulgado pelo Ministério do Trabalho e Emprego. O estudo também aponta que cerca de três em cada dez MEIs já tinham trabalhado com carteira assinada.
Os dados colocam em discussão uma mudança na relação dos profissionais com o emprego formal. A passagem para o modelo PJ pode estar relacionada a situações diferentes. Para alguns profissionais, representa uma forma de trabalhar com mais autonomia; para outros, pode ser uma alternativa encontrada depois da saída de um emprego formal.
O trabalho por conta própria já representa uma parcela expressiva da ocupação no país. Segundo o IBGE, o Brasil tinha 26,1 milhões de trabalhadores por conta própria no trimestre de maio a julho de 2026. No quarto trimestre de 2025, eram 10,5 milhões de trabalhadores por conta própria e empregadores com registro no CNPJ, alta de 4% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Ao mesmo tempo, o emprego formal continua crescendo. O mercado de trabalho registrou saldo positivo de 1,28 milhão de postos com carteira em 2025, enquanto o número de assalariados do setor privado com carteira chegou a 42,4 milhões no quarto trimestre do ano.
Para Renato Mendes, especialista em mercado de trabalho e CEO da Mendes Talent, os números não indicam simplesmente que o profissional esteja deixando a CLT, mas que passou a contar com mais alternativas para trabalhar.
“Não estamos falando de uma substituição da CLT pelo trabalho por conta própria. Os dois modelos convivem e atendem a perfis e momentos profissionais diferentes. O trabalhador hoje consegue comparar mais possibilidades e avaliar o que faz sentido para sua realidade, considerando renda, jornada, autonomia e flexibilidade”, afirma.
Mais alternativas, maior disputa por profissionais
A diversidade de formas de trabalho aparece em um momento em que as empresas também enfrentam dificuldades para preencher suas vagas. Pesquisa da FGV IBRE mostrou que 62,3% das empresas de indústria, serviços, comércio e construção tinham dificuldade para contratar ou reter profissionais no final de 2025, alta de 3,6 pontos percentuais em relação ao ano anterior.
Entre as empresas que relataram dificuldades, 43,4% investiram em capacitação interna, 36,2% ampliaram a oferta de benefícios e 18,9% aumentaram salários. A pesquisa permitia mais de uma resposta.
Para o especialista, a dificuldade de contratação não pode ser analisada apenas pela quantidade de pessoas disponíveis no mercado.
“Uma vaga pode estar aberta e ainda assim não encontrar candidatos interessados. Existe uma diferença entre ter pessoas disponíveis para trabalhar e ter profissionais dispostos a aceitar determinada oportunidade. Remuneração continua sendo importante, mas jornada, ambiente, desenvolvimento e flexibilidade também pesam na decisão”, diz Renato.
Esse contexto exige que as empresas tenham mais clareza sobre o que oferecem ao profissional. Em um mercado com diferentes formas de inserção, uma oportunidade de emprego precisa ser competitiva não apenas no salário, mas também nas condições de trabalho e nas possibilidades de desenvolvimento.
A expansão do trabalho por conta própria mostra que o profissional não está necessariamente escolhendo entre estar ou não empregado. Em muitos casos, ele está avaliando diferentes maneiras de trabalhar e de gerar renda, enquanto as empresas precisam encontrar formas de tornar suas oportunidades mais atrativas.
“O mercado de trabalho não está deixando de ter emprego formal. O que mudou foi a quantidade de alternativas disponíveis para o profissional. Para as empresas, o desafio é entender esse novo processo de escolha e construir propostas que façam sentido para as pessoas que elas precisam atrair e manter”, conclui Renato Mendes.








