Tecnologia

Da modelagem à fiscalização: como a tecnologia está mudando a gestão de PPPs e Concessões

4 Mins read

Por Rodrigo Oliveira, diretor executivo do Hub PPP

A tecnologia está mudando diferentes etapas de uma PPP ou Concessão, desde a estruturação do projeto até o acompanhamento da operação. O movimento envolve ferramentas com funções distintas: modelos para projetar demanda e investimentos, sistemas para organizar informações de projetos, sensores e câmeras para monitoramento, inteligência artificial para análise de grandes volumes de dados e ferramentas de gestão para acompanhar indicadores.

Essa diferenciação é importante porque cada tecnologia responde a uma necessidade específica. Na fase de estruturação, o foco está em reduzir incertezas e testar cenários. Durante a implantação, está em acompanhar cronogramas, custos e execução. Na operação, passa a ser medir desempenho, identificar ocorrências e verificar se as obrigações previstas no contrato estão sendo cumpridas.

Quanto mais dados disponíveis e confiáveis, maior a capacidade de tomar decisões com base em evidências. Dados melhores não eliminam a incerteza, mas ajudam a mostrar onde ela está.

Da modelagem à operação

Na estruturação de uma PPP ou Concessão, ferramentas de análise de dados podem cruzar informações sobre demanda, custos, ativos, investimentos e capacidade fiscal para testar diferentes cenários. A modelagem econômico-financeira, por exemplo, permite avaliar como diferentes premissas podem afetar a sustentabilidade do projeto e as responsabilidades de cada parte.

Esse trabalho também pode incorporar informações produzidas durante a implantação e a operação. Cronogramas, projetos, custos, licenças, indicadores de demanda e dados de manutenção formam uma base que pode ser atualizada ao longo do ciclo do contrato.

Na operação, a tecnologia ganha outra função. Sensores, câmeras e sistemas supervisórios podem produzir informações sobre o funcionamento dos ativos e a prestação dos serviços. Ferramentas de análise de dados, por sua vez, ajudam a identificar padrões, desvios e ocorrências que poderiam passar despercebidos quando as informações são analisadas de forma isolada.

Um exemplo concreto está na atuação da ANTT. Em 2026, o Centro Nacional de Supervisão Operacional (CNSO) passou a monitorar continuamente mais de 44 mil quilômetros de rodovias e ferrovias concedidas, envolvendo 30 Concessões rodoviárias e 16 ferroviárias. A estrutura funciona 24 horas por dia, com cerca de 5,5 mil câmeras e aproximadamente 2,3 mil imagens observadas simultaneamente.

O ganho, nesse caso, não está apenas na quantidade de imagens acompanhadas. A informação pode ser relacionada a indicadores operacionais, como tempo de identificação de uma ocorrência, chegada do atendimento, liberação da via, reincidência e gravidade dos eventos. Esses indicadores ajudam a transformar o monitoramento em instrumento de gestão e fiscalização do contrato.

Inteligência artificial amplia capacidade de análise

A inteligência artificial acrescenta outra camada a esse processo ao permitir a análise de grandes volumes de documentos, contratos, projetos e dados de desempenho. Em vez de substituir a avaliação técnica, pode apoiar a identificação de padrões, inconsistências e pontos que merecem uma análise mais aprofundada.

Uma aplicação possível está na leitura de contratos e documentos para localizar obrigações, prazos, indicadores, reajustes, condições de reequilíbrio e outros elementos que precisam ser acompanhados durante a execução. Em projetos com grande volume documental, esse tipo de ferramenta pode reduzir o tempo necessário para localizar informações e cruzar diferentes bases.

Um caso do TCU demonstra esse potencial. Em 2025, o órgão utilizou inteligência artificial para analisar orçamentos de licitações de obras rodoviárias e identificar inconsistências. O trabalho levou a correções e a uma economia estimada em R$ 264 milhões. O caso não envolve uma PPP ou Concessão, mas mostra como a tecnologia pode apoiar processos de análise e controle em infraestrutura.

A utilização de IA, porém, exige uma premissa importante: o resultado produzido pela ferramenta precisa ser analisado por pessoas responsáveis pela decisão. Em contratos de infraestrutura, uma inconsistência identificada por um sistema pode indicar a necessidade de revisão, mas sua interpretação depende do contexto técnico, econômico e contratual.

Tecnologia precisa estar conectada ao contrato

A digitalização também muda a discussão sobre fiscalização. Não basta produzir mais dados se eles não estiverem relacionados às obrigações assumidas pelo parceiro privado.

A Lei de PPPs estabelece que os contratos devem prever critérios objetivos para a avaliação do desempenho do parceiro privado. A legislação também permite vincular parte da remuneração ao cumprimento de metas de qualidade e disponibilidade. Por isso, indicadores precisam ser definidos de maneira verificável e estar relacionados ao que efetivamente se espera da prestação do serviço.

Essa lógica vale para diferentes setores. Em uma rodovia, podem ser relevantes indicadores de atendimento a ocorrências, disponibilidade e qualidade da infraestrutura. Em saneamento, indicadores de cobertura, continuidade e qualidade do serviço. Em iluminação pública, disponibilidade dos pontos e tempo de atendimento. O indicador muda conforme o serviço, mas a lógica é a mesma: medir aquilo que o contrato estabelece como resultado.

Os dados da ANTT ajudam a mostrar por que essa distinção importa. Entre 2024 e 2025, o número de sinistros registrados passou de 82.187 para 84.079, enquanto as mortes caíram de 2.370 para 2.000 e o número de feridos passou de 49.611 para 43.825. Esses dados mostram movimentos diferentes dentro de um mesmo conjunto de ocorrências, mas não permitem, isoladamente, atribuir os resultados ao uso de tecnologia. Para uma avaliação mais robusta, seria necessário considerar também fatores como volume de tráfego, quilômetros percorridos e características de cada trecho.

Essa cautela é importante porque a tecnologia não deve ser apresentada como causa automática de melhoria. Ela é uma ferramenta para produzir informação, identificar problemas e apoiar decisões. O resultado depende de como esses dados são utilizados e de como as responsabilidades estão estabelecidas no contrato.

O desafio dos contratos de longo prazo

PPPs e Concessões podem durar décadas, enquanto a tecnologia evolui em poucos anos. Por isso, a estruturação precisa prever mecanismos de atualização tecnológica, interoperabilidade entre sistemas e continuidade da operação, além de questões como segurança, propriedade e acesso aos dados, dependência de fornecedores e possibilidade de substituição de soluções.

A governança dos dados também ganha importância: é preciso definir quem produz cada informação, quem pode acessá-la, com que frequência ela é atualizada, quais padrões devem ser utilizados e como sua consistência será verificada. Quando dados, sistemas e indicadores estão conectados às regras do contrato, a tecnologia deixa de ser apenas uma camada adicional de complexidade e passa a apoiar o acompanhamento da execução, a identificação de desvios e a tomada de decisões ao longo da Concessão.

Related posts
Tecnologia

Seu agente de IA funciona. Mas quem responde quando ele erra?

4 Mins read
Da autorização para agir ao custo de cada tarefa, especialistas da MATH Group apontam oito decisões que separam um protótipo de uma…
Tecnologia

SCHWING prepara lançamento da bomba lança XS72 no Brasil

3 Mins read
Equipamento de cinco eixos reúne mastro biônico com abertura 6RZR, flexibilidade de montagem e soluções que favorecem a produtividade, a estabilidade operacional…
Tecnologia

Diante de mais de 6 mil recuperações judiciais no Brasil, paranaense LEME leva à Fenalaw tecnologia que auxilia da prevenção à recuperação de ativos

3 Mins read
Ferramentas de inteligência corporativa ajudam empresas a identificar sinais de deterioração financeira meses antes de um pedido de recuperação judicial, e assunto…