*André Bobek
A eleição presidencial de 2026 acontece em um momento de contrastes para a economia brasileira. O país chega às urnas sem recessão, com mercado de trabalho aquecido e atividade econômica positiva, mas ainda enfrenta inflação acima da meta, juros elevados, baixo nível de investimento e uma trajetória fiscal que exige atenção. Para investidores, o resultado das urnas será importante, mas a capacidade do próximo governo de enfrentar esses desafios poderá ser ainda mais determinante para o comportamento dos mercados.
O PIB brasileiro cresceu 1,1% no primeiro trimestre de 2026 e acumula alta de 2% em quatro trimestres. O mercado de trabalho também permanece como um dos principais pontos positivos da economia: a taxa de desemprego chegou a 5,6% no trimestre encerrado em maio, enquanto a renda média real alcançou R$ 3.726.
O desempenho ajuda a sustentar o consumo das famílias e dá ao governo atual uma fotografia econômica favorável em um dos indicadores mais percebidos pela população: emprego e renda. Em períodos eleitorais, esses fatores tendem a ter impacto relevante sobre a percepção dos eleitores, muitas vezes superior ao de indicadores macroeconômicos mais técnicos.
A outra face do cenário, porém, é menos confortável. A taxa de investimento caiu para 16,5% do PIB no primeiro trimestre, ante 17,6% um ano antes. A inflação acumulada em 12 meses alcançou 4,64%, acima da meta de 3%, enquanto a Selic permanece em 14,25% ao ano. A dívida bruta do Governo Geral chegou a 81,1% do PIB em maio, e as projeções do mercado apontam para déficit primário em 2026.
Esse conjunto de indicadores cria um dilema para o próximo governo: preservar os avanços recentes em emprego e renda sem ampliar desequilíbrios que podem comprometer o crescimento nos próximos anos.
Mais do que o vencedor, mercado observará a política econômica
Para o mercado financeiro, a eleição não será avaliada apenas pelo nome do vencedor. Investidores acompanharão principalmente os sinais sobre a condução da política econômica a partir de 2027.
Compromisso fiscal, relação com o Congresso, autonomia do Banco Central, segurança jurídica, controle da dívida pública e capacidade de criar condições para a redução sustentável dos juros estarão entre os principais fatores considerados na precificação dos ativos.
Por isso, uma eventual vitória de Lula não significaria necessariamente uma reação negativa dos mercados, assim como uma vitória de Flávio Bolsonaro não produziria automaticamente uma reação positiva. O comportamento dos investidores dependerá da percepção de credibilidade e capacidade de execução da política econômica do próximo governo.
Esse processo, inclusive, já ocorre antes das eleições. Pesquisas eleitorais, discursos, alianças e propostas econômicas são incorporadas diariamente aos preços de ações, câmbio e juros futuros. Em agosto, levantamentos ainda apontam vantagem de Lula em cenários de segundo turno, mas mostram uma disputa competitiva.
A consequência é um ambiente de maior volatilidade, no qual decisões de investimento baseadas exclusivamente na expectativa sobre o resultado eleitoral podem aumentar o risco da carteira.
O risco de transformar a eleição em uma aposta financeira
Para o investidor, um dos principais erros em períodos eleitorais é tratar a disputa como uma escolha binária entre cenários de ganho ou perda. A economia não reage apenas ao resultado das urnas, mas à combinação de política fiscal, monetária, cambial e institucional implementada posteriormente.
Uma estratégia de preservação e crescimento patrimonial precisa considerar diferentes possibilidades para juros, inflação, câmbio e atividade econômica. Em vez de tentar antecipar exatamente qual candidato vencerá ou como cada ativo irá reagir, o investidor pode estruturar sua carteira para diferentes cenários.
Esse cuidado ganha importância em um momento no qual a dívida pública elevada aumenta a sensibilidade do mercado às expectativas fiscais. Caso o próximo governo demonstre capacidade de estabilizar as contas públicas e melhorar a previsibilidade econômica, poderá criar condições mais favoráveis para investimentos e para uma eventual trajetória de queda dos juros. Em sentido contrário, uma deterioração das expectativas fiscais pode manter o custo do dinheiro elevado e limitar o investimento privado.
Próximo presidente terá pouco espaço para erros
O principal desafio econômico do próximo mandato será conciliar o bom desempenho do mercado de trabalho com a necessidade de melhorar as contas públicas e elevar o nível de investimento.
O Brasil chega à eleição com desemprego baixo e crescimento da renda, mas também com uma taxa de juros que encarece o crédito, reduz o apetite por investimentos e aumenta o custo de financiamento da economia. Ao mesmo tempo, a dívida pública elevada limita o espaço para políticas de estímulo fiscal.
A questão, portanto, não será apenas manter o crescimento no curto prazo, mas criar condições para que ele seja sustentável. Sem aumento da produtividade e dos investimentos, uma economia apoiada principalmente no consumo e no gasto público encontra dificuldades para acelerar de maneira consistente.
Nesse cenário, o próximo presidente receberá uma economia que não precisa ser reconstruída do zero, mas que terá de enfrentar gargalos estruturais. A capacidade de preservar emprego e renda enquanto melhora a trajetória fiscal será determinante para definir o ambiente econômico dos próximos anos.
Para quem investe, a eleição deve ser acompanhada menos como uma disputa de nomes e mais como uma disputa de projetos econômicos. As propostas para as contas públicas, a condução da política monetária, a relação com o Congresso e as medidas destinadas a estimular investimentos e produtividade terão impacto direto sobre juros, câmbio, renda e patrimônio.
No fim, mais importante do que tentar adivinhar quem ocupará o Palácio do Planalto será entender qual economia o próximo governo pretende construir. É a credibilidade dessa agenda, e sua capacidade de execução, que poderá determinar se o Brasil transformará o atual cenário de emprego e crescimento em uma trajetória sustentável ou continuará convivendo com juros elevados, baixo investimento e pressão fiscal.








