NegóciosViral

Empresários e economistas veem novo mandato sem lua de mel e cobram ajuste fiscal imediato

4 Mins read

Em jantar com empresários, Zeina Latif, Bruno Musa e Murillo de Aragão apontam urgência de sinais concretos de ajuste; Índice Mercado & Opinião mostra que a queda do consumo já preocupa mais do que os juros

Dois dias depois da reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva, os empresários reunidos pelo Mercado & Opinião ouviram um diagnóstico que se repetiu entre os palestrantes: o novo mandato começa sem lua de mel e a primeira cobrança virá pelo lado fiscal. O jantar teve a participação da economista Zeina Latif, sócia da Gibraltar Consulting, de Murillo de Aragão, presidente da Arko Advice, Milena Leal, country manager do Google Cloud no Brasil e o economista Bruno Musa. O encontro aconteceu sob o efeito do derretimento do mercado na segunda-feira e da expectativa pela próxima reunião do Copom.

Zeina rejeitou a leitura de que o resultado das urnas fosse, para a economia, uma escolha entre dois caminhos opostos. Na avaliação dela, os dois candidatos tinham perfil populista e o vencedor herda um quadro mais difícil do que o de quatro anos atrás. “O país que o Lula enfrenta hoje é pior. Os números são piores do que os de 2022. Estamos falando de indicadores fiscais piores, de déficit de credibilidade, de endividamento de famílias, de inadimplência e de uma desaceleração em curso da economia”.

A troca no comando da Fazenda, segundo a economista, é um recado relevante, mas insuficiente. Ela lembrou que Paulo Guedes foi isolado rapidamente no governo Bolsonaro e disse que o peso do ajuste terá de recair sobre o próprio presidente. “Não basta colocar um bom ministro. O presidente tem que assumir o custo político. Não dá para mandar para o Congresso e dizer que agora o Congresso resolve”.

Zeina descartou a ideia de uma bala de prata. O caminho, defendeu, passa por ajustes graduais em várias frentes, como a revisão do desenho do abono salarial e do BPC, a exemplo do que a Austrália fez nas décadas de 1980 e 1990. Mais do que o tamanho das medidas, o que pesa é a confiança no plano. Ela citou o governo Temer, quando a melhora nos preços dos ativos e nas expectativas de inflação veio antes mesmo da aprovação do teto de gastos, “como um corpo que está inflamado e vai desinflamando”.

A economista também chamou atenção para uma mudança na relação da sociedade com a política monetária. “A taxa de juros, que sempre foi um tema do setor privado, hoje é tema da sociedade”, afirmou, ao relacionar o fenômeno ao alto grau de endividamento. Para ela, a desaceleração prevista para o próximo ano merece atenção, mas não deve ser comparada à recessão de 2015, quando a Lava Jato paralisou a construção civil e os investimentos públicos.

O ponto conversa com o Índice Mercado & Opinião, levantamento mensal feito com os empresários que integram o grupo e distribuído aos convidados durante o jantar. Na edição mais recente, a queda do consumo aparece como preocupação maior do que os próprios juros. Outros indicadores vão na mesma direção: a confiança do empresário do comércio medida pela CNC recuou em outubro ao menor nível desde maio de 2021.

“O empresário já não enxerga os juros apenas como custo financeiro. Com famílias endividadas e inadimplência alta, a pergunta que ele faz é se o cliente vai continuar comprando. O juro pesa, mas o que está no centro das conversas hoje é a demanda”, avalia Marcos Koenigkan, fundador do Mercado & Opinião.

Na leitura política, Murillo de Aragão vê espaço para algum realismo. “O Lula 4, pelas circunstâncias, pode ser um pouco melhor do que todo mundo achava”, disse. O motivo, segundo ele, é a combinação de situação fiscal delicada, juros altos e disputa política intensa, que tende a empurrar o presidente para uma postura parecida com a do primeiro mandato. O desafio central, resumiu, é a credibilidade. “O investidor acredita na tendência. Ele não precisa ver todos os cortes amanhã, precisa ver que o governo quer fazer esses cortes”.

O analista também criticou o modo como o debate público tem sido conduzido. “Nós vivemos hoje uma república da atenção. Ela não é orientada pela prioridade do país e sim por aquilo que chama a atenção”.

Entre os convidados, o economista da FIESP, Bruno Musa, deslocou o foco da urgência do ajuste para a forma que ele deve ter. “O mercado não vai se convencer com mais arrecadação. O Brasil já cobra imposto de país rico e entrega serviço de país pobre. Se a conta for fechada pelo lado da receita, quem paga é justamente quem está nesta sala”.

Musa associou ainda o patamar dos juros à desconfiança com as contas públicas. “Enquanto o governo gastar mais do que arrecada, o Banco Central vai continuar enxugando gelo. O Copom pode até começar a cortar, mas o espaço para isso vai ser decidido muito mais em Brasília do que na Faria Lima”.

Milena Leal levou a discussão para dentro das empresas. A executiva afirmou que o Brasil se destaca na experimentação com inteligência artificial, mas que poucas companhias já convertem o uso em ganho financeiro relevante. Na visão da executiva, a pressa costuma atropelar a base. “A automação não é a transformação. Se o dado está errado, se a arquitetura não foi organizada, eu vou ter uma automação de vários erros”. A country manager alertou para o risco de custos fora de controle quando a adoção avança sem governança.

“Num momento de tanta incerteza, o empresário precisa de um espaço para ouvir quem pensa diferente e para contar o que está vendo no próprio negócio. É isso que o Índice capta todo mês. Já abrimos a rodada sobre as expectativas para 2027 e o retrato que sair dali vai mostrar se o humor do pós-eleição se transforma em decisão ou em espera”, diz Koenigkan.

Vice-presidente do Mercado & Opinião e responsável pela articulação dos encontros em São Paulo, Paulo Motta sintetiza o clima da noite. “O empresário saiu da eleição cauteloso, mas não paralisado. Ninguém aqui espera milagre, espera sinal. Se o caminho fiscal ficar claro, muita decisão de investimento que está em compasso de espera volta para a mesa”.

Zeina encerrou sua participação sem prometer céu de brigadeiro. “A minha palavra para vocês não é de otimismo, mas de um certo pragmatismo”.

Related posts
Negócios

Nova fase da Reforma Tributária terá impacto direto no fluxo de caixa das empresas

2 Mins read
Tecnologia torna-se indispensável para simular impactos no caixa, auditar documentos em tempo real e monitorar a conformidade fiscal de fornecedores  As empresas…
BusinessNegócios

Multidão toma conta da orla de Fortaleza em encontro histórico de fé com Padre Reginaldo Manzotti

2 Mins read
Com acesso gratuito e aberto ao público, XIX Evangelizar É Preciso Fortaleza reuniu milhares de fiéis no Aterro da Praia de Iracema,…
Negócios

Sua empresa fatura ou realmente dá lucro?

2 Mins read
Cinco sinais de que o empresário está administrando no escuro Aumento das vendas, dinheiro na conta e pagamentos em dia podem transmitir…