Erros na apuração e ausência de planejamento fiscal elevam carga real das companhias e levam empresas a revisar anos anteriores para recuperar prejuízos
A carga tributária bruta do governo geral atingiu 32,40% do PIB em 2025, segundo o Tesouro Nacional, patamar que mantém o Brasil entre os países com maior peso de tributos sobre a atividade econômica. O dado dimensiona o custo estrutural para as empresas, mas não explica sozinho a pressão sobre o caixa. Parte relevante desse impacto vem de dentro das operações. Na visão de Mayra Saitta, advogada tributarista e fundadora do Grupo Saitta, erros recorrentes na apuração ampliam o valor pago. “Não é só imposto alto. Muitas empresas pagam mais do que deveriam por falta de controle e leitura correta da legislação”, afirma.
O problema, segundo ela, é estrutural e está ligado à forma como a gestão tributária é conduzida no dia a dia. O levantamento do Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação aponta que o sistema brasileiro é marcado pela alta complexidade, com grande volume de normas e constantes alterações. Esse ambiente aumenta o risco de equívocos operacionais e dificulta o aproveitamento correto de créditos fiscais.
Na prática, os impactos são diretos, empresas acabam recolhendo tributos indevidamente ou deixam de aplicar estratégias legais que poderiam reduzir a carga. “É comum encontrar organizações que pagam impostos em duplicidade, deixam de compensar créditos ou operam em regimes fiscais inadequados para sua realidade”, diz. O resultado é a perda de margem e menor capacidade de crescimento.
Revisão dos últimos anos ganha força entre empresas
Com o aumento do rigor fiscal e o avanço do cruzamento de dados pelo Fisco, empresas têm intensificado revisões retroativas para identificar distorções. A prática envolve analisar os últimos anos fiscais em busca de pagamentos indevidos e oportunidades de recuperação de créditos dentro da legislação.
“Muitas empresas só percebem o problema quando fazem uma revisão mais profunda. Em vários casos, há valores pagos a mais por anos”, afirma. Segundo a especialista, esse movimento tende a crescer diante da necessidade de melhorar a eficiência financeira sem depender exclusivamente de aumento de receita.
A ausência de planejamento tributário também contribui para o cenário. Sem estratégia definida, empresas operam de forma reativa, acompanhando apenas obrigações básicas. “Quando não há planejamento, a empresa perde previsibilidade e deixa dinheiro na mesa”, diz.
Contabilidade estratégica reduz riscos e melhora resultado
Outro ponto crítico está na falta de integração entre áreas internas. Informações desencontradas entre financeiro, contábil e gestão aumentam o risco de inconsistências ao longo do tempo. Para Mayra, a contabilidade precisa assumir um papel mais ativo nas decisões. “A contabilidade não pode ser apenas operacional. Quando ela é estratégica, consegue antecipar riscos e reduzir custos tributários de forma legal”, afirma.
Além das perdas financeiras, erros na apuração podem gerar passivos relevantes e exposição a autuações. O ambiente de fiscalização mais digital e automatizado reduz a margem para falhas e aumenta a necessidade de controle rigoroso.
Nesse contexto, empresas têm buscado apoio de especialistas para estruturar processos e revisar práticas fiscais. Escritórios com atuação consultiva tendem a oferecer ganhos mais consistentes ao alinhar a gestão tributária à estratégia do negócio. “Contabilidade não é custo, é ferramenta de gestão. Quando bem utilizada, impacta diretamente o resultado”, diz.
Com a carga tributária elevada e um sistema complexo, a diferença entre eficiência e perda financeira passa a depender da qualidade da gestão interna. “Hoje, quem não revisa processos e não tem estratégia tributária acaba pagando mais do que deveria”, conclui.








