A possível adoção da escala 5×2 para caminhoneiros tem gerado debates relevantes no setor de transporte rodoviário de cargas. Embora a proposta traga benefícios sociais importantes, como mais tempo de descanso e melhor qualidade de vida, sua aplicação em operações de longa distância exige uma análise cuidadosa da realidade logística. A avaliação é de Filipe Veras, especialista no setor e diretor executivo da FV Logística.
Segundo Veras, o principal desafio está na adaptação de um modelo de jornada tradicionalmente urbano a uma atividade marcada por longas distâncias, prazos rigorosos e operação contínua. “O transporte rodoviário não funciona dentro de uma lógica fixa. Estamos falando de rotas que atravessam estados e países, com variáveis que fogem ao controle da operação”, explica.
Longas distâncias exigem flexibilidade
Em rotas nacionais e internacionais, motoristas podem levar dias para concluir uma entrega. Em trajetos como Brasil e Argentina, por exemplo, além do tempo de viagem, há etapas burocráticas em fronteiras que impactam diretamente o cronograma.
De acordo com Filipe Veras, nesse contexto, o descanso previsto pela escala pode ocorrer longe de casa, em postos de estrada ou áreas de parada. “É preciso avaliar se esse descanso realmente melhora a qualidade de vida ou se acaba gerando períodos ociosos que comprometem a operação”, pontua.
Impacto direto nos custos operacionais
Outro ponto destacado pelo especialista é o impacto financeiro. No transporte rodoviário, a produtividade da frota é essencial. Veículos parados representam custos contínuos, como financiamento, seguro, depreciação e despesas com alimentação e segurança.
“A paralisação prolongada de caminhões pode exigir replanejamento logístico, contratação de mais motoristas e aumento de custos operacionais. Isso inevitavelmente pressiona o valor do frete”, afirma Veras.
Frete mais caro e efeito em cadeia
Como o transporte rodoviário é a base da logística brasileira, qualquer aumento de custo tende a ser repassado ao longo da cadeia produtiva. Indústria, agronegócio, comércio e consumidor final podem sentir os efeitos.
Para o especialista, setores que dependem de previsibilidade e cumprimento rigoroso de prazos são os mais vulneráveis. “Uma mudança mal estruturada pode impactar diretamente a competitividade das empresas brasileiras”, alerta.
Infraestrutura e segurança são fatores críticos
A ampliação dos períodos de descanso também levanta questões sobre infraestrutura. Filipe Veras destaca a necessidade de pontos de parada adequados, com segurança, alimentação e estrutura para pernoite. “Sem essa base, aumentam os riscos, principalmente em cargas de alto valor, como eletrônicos e medicamentos. Isso também impacta seguros e gestão de risco”, explica.
Operações internacionais ampliam a complexidade
No comércio exterior, especialmente nas rotas do MERCOSUL, o cenário se torna ainda mais desafiador. Processos aduaneiros, filas e fiscalizações tornam o tempo de viagem imprevisível. “Uma regra rígida, sem considerar essas variáveis, pode comprometer prazos e reduzir a competitividade das transportadoras brasileiras no mercado internacional”, destaca Veras.
Equilíbrio entre bem-estar e viabilidade
Para Filipe Veras, o debate sobre a escala 5×2 é necessário, mas precisa ser conduzido com base técnica e diálogo com o setor. “O desafio é encontrar um equilíbrio entre qualidade de vida do motorista, eficiência operacional e sustentabilidade econômica”, afirma.
Na avaliação do especialista, a discussão vai além da jornada de trabalho e envolve a estrutura logística do país. “A pergunta central é se o Brasil está preparado para implementar esse modelo sem aumentar ainda mais o custo logístico”, conclui.








