Por Edison Severo Maltoni
Nos últimos meses, ganhou força no Brasil o debate sobre o possível fim da escala 6×1 — modelo em que o trabalhador atua seis dias por semana e descansa um. É natural que o tema desperte interesse, afinal todos desejam melhorar a qualidade de vida de quem trabalha.
No entanto, quando o assunto é jornada de trabalho, especialmente no Comércio, é preciso olhar para a realidade do dia a dia das empresas e dos trabalhadores.
Em municípios como Jundiaí e outros da nossa região, o Comércio é formado principalmente por pequenos e médios negócios. São lojas, mercados, padarias, farmácias, restaurantes e prestadores de serviços que fazem parte da rotina da população e sustentam milhares de empregos.
Esses estabelecimentos devem estar abertos quando o consumidor precisa deles — durante a semana, aos sábados e, muitas vezes, também aos domingos e feriados. Para que isso funcione, é necessário organizar escalas de trabalho que garantam atendimento ao público e, ao mesmo tempo, condições adequadas para os trabalhadores.
É justamente por isso que essas regras têm sido definidas por meio da negociação coletiva entre sindicatos patronais e sindicatos dos trabalhadores. Esse modelo permite que cada setor e cada região encontre soluções adequadas à sua realidade.
No Comércio do interior paulista, diversas convenções coletivas já estabeleceram jornadas menores que o limite legal de 44 horas semanais. Em muitos casos, a média praticada gira em torno de 39 horas por semana. Esses avanços não surgiram por imposição, mas sim por meio do diálogo entre empresas e trabalhadores.
Quando existe negociação, é possível ajustar horários, organizar folgas, tratar da jornada em fins de semana e encontrar formas equilibradas de compensação. É um processo que considera as demandas de quem emprega e as de quem trabalha. Por outro lado, transformar esse debate em uma regra única definida por lei nacional pode trazer dificuldades, principalmente para os pequenos negócios.
Diferentemente das grandes empresas, o pequeno comerciante geralmente administra equipes reduzidas e margens apertadas. Mudanças bruscas ou regras rígidas podem aumentar custos e dificultar a organização das escalas. Em muitos casos, essa situação pode significar menos contratações, redução de equipes ou até dificuldades para manter o negócio funcionando.
E, quando um pequeno comércio fecha as portas, todos perdem — o empresário, os trabalhadores e a própria cidade, que depende dessas empresas para movimentar a economia local.
Esse contexto não significa que o debate sobre jornada de trabalho não seja importante. Pelo contrário. A melhoria das condições laborais é um objetivo de toda a sociedade. No entanto, experiências internacionais mostram que reduções de jornada bem-sucedidas aconteceram de forma gradual e acompanhadas de aumento de produtividade, investimentos em tecnologia e qualificação profissional.
No Brasil, ainda lidamos com obstáculos importantes, como a alta carga tributária, custos elevados para as empresas e um ambiente de negócios bastante complexo.
Por isso, o caminho mais seguro e responsável continua sendo o diálogo. Mais do que impor mudanças por lei, é fundamental valorizar os instrumentos de negociação que já existem e que, há décadas, ajudam a organizar as relações trabalhistas no Brasil.
O desenvolvimento das cidades do interior passa pelo fortalecimento das empresas locais, pela geração de empregos e por um ambiente de trabalho construído com equilíbrio, responsabilidade e diálogo.








