Saúde

Estresse avança nas empresas e práticas genéricas de bem-estar não sustentam constância nem desempenho

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Alta global nos transtornos de ansiedade expõe limite de ações pontuais e reforça necessidade de método aplicado à regulação emocional no trabalho

A Organização Mundial da Saúde informou em 2022 que houve aumento de 25% na prevalência global de ansiedade e depressão no primeiro ano da pandemia. Antes disso, estimativas consolidadas da entidade já indicavam que o Brasil liderava o ranking mundial de transtornos de ansiedade, com cerca de 9,3% da população afetada. 

No ambiente corporativo, o impacto aparece em afastamentos e queda de produtividade. Apesar da expansão de aplicativos e ações internas de bem-estar, a adesão costuma ser baixa e o efeito, limitado.

Claudia Faria, especialista em regulação emocional em contextos de alta pressão e criadora do Yoga Adventure, método que integra respiração e movimento consciente para gestão do estresse, afirma que o problema não é falta de informação, mas ausência de repetição estruturada. Com mais de 20 anos de experiência e atuação como escaladora profissional, ela desenvolveu uma abordagem voltada à modulação do sistema nervoso. “O corpo não aprende com estímulos pontuais. Constância é o que transforma a prática em habilidade”, diz.

Para Claudia, há um fator decisivo que costuma ser ignorado: o tempo disponível do colaborador. “O colaborador não se permite doar 30 minutos no meio do expediente para uma atividade estruturada. Ele faz a pausa para o café, mas não percebe que pode usar dois ou três minutos para regular o próprio estado fisiológico”, afirma.

Na avaliação da especialista, a respiração aplicada tem uma vantagem operacional decisiva. Enquanto atividades convencionais exigem sessões de 30 minutos para gerar efeito consistente, técnicas respiratórias podem produzir regulação fisiológica em dois a três minutos, o que torna a prática viável dentro da rotina produtiva. “Se exige 30 minutos, vira mais uma tarefa. Se exige três, vira ferramenta”, resume.

Do ponto de vista fisiológico, o estresse crônico está ligado à ativação prolongada do sistema nervoso simpático e à liberação constante de cortisol. Técnicas respiratórias aplicadas com regularidade ajudam a modular essa resposta, ampliando foco e clareza mental. A diferença, segundo a especialista, está em transformar a prática em competência treinável. “Respiração não é relaxamento superficial. É ferramenta de gestão emocional e tomada de decisão”, observa.

Ao tratar o tema como treinamento, empresas podem associar programas de regulação emocional a metas objetivas, como redução de afastamentos e preparo de lideranças para cenários críticos. A implementação, contudo, exige critério e método.

A especialista aponta cinco estratégias para estruturar programas de regulação emocional com impacto real

Para que a iniciativa gere resultado mensurável, alguns pontos são considerados estratégicos:

  • Conectar a prática a desempenho
    O treinamento deve estar vinculado a situações concretas do trabalho, como negociação, liderança e gestão de crise.
  • Priorizar método com acompanhamento
    Programas estruturados aumentam aderência e permitem avaliar evolução ao longo do tempo. Além disso, devem ser aplicáveis em janelas curtas de dois a três minutos, para não competir com a rotina operacional.
  • Capacitar lideranças
    Gestores que vivenciam a prática ampliam a legitimidade interna do programa.
  • Estabelecer frequência mínima
    Sessões esporádicas têm efeito limitado. Repetições curtas e constantes ao longo da semana consolidam habilidade fisiológica com maior viabilidade dentro do expediente.
  • Definir indicadores de avaliação
    Absenteísmo, rotatividade e percepção de estresse ajudam a mensurar impacto e orientar ajustes.

Absenteísmo e percepção de estresse ajudam a mensurar impacto e orientar ajustes.

Ao contratar profissionais da área, a recomendação é avaliar formação, experiência prática em contextos de alta pressão e clareza metodológica. “Existe diferença entre oferecer uma experiência pontual e treinar estabilidade emocional aplicada ao trabalho. O contratante precisa entender essa fronteira”, afirma.

Com metas cada vez mais exigentes, o debate sobre saúde mental deixa de ser periférico. Para Claudia, a constância passa a integrar a estratégia organizacional. “Não se trata de inserir mais uma atividade no calendário. Trata-se de treinar o corpo para sustentar performance no longo prazo”, conclui.

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