Tecnologia

Evasão escolar compromete a inserção de mulheres no mercado de tecnologia e perpetua a desigualdade econômica

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*Por Sonia de Almeida

A transformação digital avança em ritmo acelerado e reposiciona o mercado de trabalho global. Áreas como desenvolvimento de software, análise de dados e inteligência artificial estão entre as que mais crescem e oferecem melhores salários. No entanto, para milhares de meninas brasileiras, o acesso a essas oportunidades é interrompido muito antes da escolha profissional, pois é comprometido pela evasão escolar.

Seguir carreira na área de  Tecnologia da Informação exige domínio de matemática, raciocínio lógico, interpretação de texto e letramento digital, tais competências construídas ao longo da educação básica. Quando meninas abandonam a escola por vulnerabilidade social, necessidade de trabalhar ou gravidez precoce, perdem a chance de consolidar essa base essencial.

Segundo levantamento de 2025, realizado na Paraíba pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e pela União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), cerca de 56% das crianças e adolescentes em evasão escolar no Estado são meninas. Sem ensino médio completo, o acesso ao ensino superior já se torna mais restrito. Sem formação sólida em disciplinas exatas, o ingresso em cursos como ciência da computação, engenharia ou sistemas de informação se distancia ainda mais. E, sem qualificação técnica, a porta de entrada para o setor de tecnologia praticamente se fecha. Forma-se um funil excludente: menos escolaridade gera menos qualificação, que gera menos acesso a carreiras de alta renda.

O setor de tecnologia é hoje um dos principais motores da economia digital. No Brasil, a demanda por profissionais de TI cresce consistentemente, enquanto a oferta de mão de obra qualificada ainda não acompanha esse ritmo. Uma pesquisa de 2025 da consultoria global de gestão Bain & Company revelou que, no país, com 5,2 mil profissionais do setor de tecnologia no país, 39% dos executivos relatam que a limitação de expertise interna já atrasa a adoção da tecnologia em suas empresas.

Quando mulheres ficam de fora desse ecossistema, o impacto não é apenas individual, mas estrutural. Elas passam a ocupar, majoritariamente, setores com menor remuneração, maior informalidade e menor estabilidade. A desigualdade de renda se amplia e se perpetua. Cada ano adicional de escolaridade aumenta significativamente a renda futura de uma pessoa. Quando uma menina abandona a escola precocemente, ela não perde somente um diploma, mas décadas de potencial de renda acumulada.

A evasão escolar é o início de um ciclo intergeracional de desigualdade e, por isso, deve ser sanado para possibilitar autonomia financeira, capacidade de investimento, segurança previdenciária e mobilidade social.

*Sonia de Almeida, Diretora Executiva da Afesu.

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