Informações

Fibra de alta performance conquista o mercado brasileiro

3 Mins read

Porque o avanço da poliamida 6 revela mais do que uma tendência e aponta o futuro do vestir no país

(Por Renato Benvenuti CEO da RVB)

A moda brasileira vive uma transformação silenciosa, porém profunda. Performance, conforto e bem-estar deixaram de ser atributos restritos ao esporte para se tornarem critérios centrais de escolha no guarda-roupa cotidiano. Esse movimento ajuda a explicar o crescimento consistente das fibras sintéticas no país, com destaque para a poliamida 6 (PA6, nylon 6), que hoje ocupa posição estratégica em segmentos como moda esportiva, athleisure, underwear, lingerie e moda praia, categorias diretamente ligadas ao movimento, ao uso intenso e ao contato prolongado com o corpo.

Os dados confirmam essa virada. Entre 2020 e 2024, o consumo de fibras sintéticas no Brasil cresceu 12,2%, enquanto o de fibras naturais avançou 7,5%, segundo o Relatório Setorial Brasil Têxtil 2025, da IEMI – Inteligência de Mercado. O mesmo levantamento mostra que a produção nacional de têxteis é estimada em 10,2 kg por habitante, frente a um consumo de 13 kg por habitante, reforçando o papel estrutural das importações no abastecimento do mercado interno.

Mais do que uma mudança quantitativa, trata-se de uma mudança cultural. O consumidor brasileiro passou a valorizar atributos objetivos e mensuráveis: conforto térmico, toque macio, elasticidade, boa recuperação, resistência ao desgaste e secagem rápida. Em construções de malha voltadas ao movimento e ao uso contínuo, essas características estão fortemente associadas à poliamida 6, o que explica sua crescente adoção por marcas e confecções que buscam desempenho aliado à estética.

A consolidação do athleisure ajuda a contextualizar esse cenário. Estimativa divulgada pela Forbes Brasil, com base em relatório do IMARC Group, indica que o mercado brasileiro desse segmento movimentou US$ 4,28 bilhões em 2024, com projeção de alcançar US$ 6 bilhões até 2033. A fusão entre moda e performance deixou de ser tendência passageira para se tornar uma dinâmica econômica estrutural.

No Brasil, esse impulso encontra terreno fértil em setores nos quais o país já possui tradição e relevância, como a moda praia, além de fitness e lingerie. São categorias com alta afinidade com tecidos tecnológicos e com forte presença de fibras sintéticas no mix de matérias-primas. 

Relatórios internacionais de materiais apontam a poliamida como uma das fibras mais relevantes em volume global, ao mesmo tempo em que evidenciam os desafios para ampliar a circularidade em escala. Na prática, isso tem acelerado o desenvolvimento de soluções já presentes no mercado: poliamidas de base renovável obtidas a partir de biomassa, poliamidas recicladas oriundas de resíduos industriais, fios não tingidos ou com etapas reduzidas de tingimento, diminuindo consumo de água e energia, além da aditivação funcional em fibra, como micropartículas minerais ou cerâmicas que alteram a sensação térmica e o comportamento do tecido durante o uso.

Essas tecnologias não surgem por acaso. Elas respondem a demandas concretas do consumidor contemporâneo: mais conforto no calor, durabilidade ampliada, manutenção da aparência após uso repetido e processos produtivos mais eficientes. No entanto, esse avanço convive com uma característica estrutural da cadeia têxtil brasileira: o país não produz o fio de poliamida 6 e depende integralmente da importação para abastecer sua indústria.

É nesse contexto que fornecedores internacionais passaram a ocupar o centro do debate recente sobre medidas antidumping. As sobretaxas em discussão, que adicionam cerca de US$ 1,97 por quilo ao custo do fio importado, cujo preço médio gira em torno de US$ 2,60/kg, acenderam um alerta no setor. Não há produção nacional equivalente desse insumo, e o impacto tende a se espalhar por toda a cadeia, pressionando custos, influenciando decisões de produção e afetando a competitividade frente a produtos importados já acabados.

Para a indústria e para as marcas, o tema vai além do custo imediato. A poliamida 6 é a base de grande parte das inovações que sustentam a moda de desempenho. Qualquer restrição de acesso ou encarecimento do insumo pode limitar investimentos em desenvolvimento de novos produtos e em diferenciação tecnológica, justamente os fatores que permitem ao Brasil competir em segmentos de maior valor agregado.

O que se desenha a partir de 2026 é uma tendência clara: a consolidação da moda que comprova benefício. Uma moda em que material, construção e tecnologia atuam de forma integrada para entregar conforto, funcionalidade e responsabilidade de maneira verificável. É nesse cruzamento entre consumo, inovação e desempenho que a poliamida 6 se firma como fibra estratégica e como uma das chaves para compreender o futuro do vestir no Brasil.

Related posts
Informações

Conta salário poderá pagar contas automaticamente pelo pix a partir de 2027.

3 Mins read
Nova regra do Banco Central permitirá que salários sejam usados diretamente para pagamentos recorrentes; especialista explica limites e cuidados para o consumidor…
Informações

Estratégia bonita no papel não recupera crédito: o abismo entre planejar e executar

4 Mins read
*Guilherme Busch Toda operação de recuperação de crédito tem uma estratégia bem desenhada. Segmentação de carteira por perfil de risco, régua de…
Informações

RecargaPay alcança 15 milhões de clientes no Brasil

2 Mins read
Fintech, que encerrou 2025 com receita de R$ 1,66 bi, amplia sua base de usuários em 50% e diversifica receitas com cartão…