Franquia

Franquias entram em fase mais seletiva e deixam a expansão sem critério para trás

3 Mins read

Por Paulo Mauro, precursor do Franchising no Brasil e CEO da Global Franchise

A expansão de franquias, no Brasil e no exterior, entrou em uma fase mais madura e menos deslumbrada com volume. A tese central hoje é simples: crescer continua sendo importante, mas crescer sem critério virou um risco caro demais. O setor brasileiro fechou 2025 com faturamento acima de R$ 300 bilhões, alta de 10,5%, e quase 1,8 milhão de empregos formais, segundo a ABF. Ao mesmo tempo, a própria internacionalização das redes brasileiras passou a premiar consistência, com 71 marcas certificadas e 3.320 operações em 80 países, número 14% maior do que o do ano anterior. Isso mostra um mercado relevante, mas também mais exposto ao custo de decisões apressadas.

A principal mudança está no critério de seleção. Durante muito tempo, parte do franchising tratou expansão como corrida por leads, cidades e bandeiras fincadas no mapa. Dados compilados a partir da Convenção Mundial da IFA mostra que esse raciocínio está perdendo espaço. Nos benchmarks reunidos no documento, apenas 1% a 2% dos candidatos iniciais chegam à assinatura do contrato, o ciclo médio de decisão gira em torno de 12 semanas nos Estados Unidos e os parâmetros setoriais apresentados no workshop indicam conversão média de 2% de leads em vendas, com ciclo total próximo de 24 semanas. Quando a conversão é tão estreita, a obsessão por velocidade tende a mascarar um problema mais grave: o franqueador fala com muita gente, mas escolhe pouco e escolhe mal.

No mercado nacional, isso exige uma revisão de rota. O setor segue forte, mas força de marca e demanda reprimida já não bastam para justificar crescimento desordenado. A experiência recente mostra que expandir bem depende menos de abrir muitas unidades em sequência e mais de dominar métricas básicas, como tempo de implantação, custo por lead, taxa de fechamento, capacidade de suporte ao franqueado e desempenho por praça. A lição prática é clara: uma rede não cresce de forma saudável quando vende mais franquias do que consegue inaugurar, treinar e sustentar. Crescimento sem retaguarda operacional produz conflito, fecha unidades cedo e corrói reputação, justamente o ativo mais importante do franchising. A própria IFA projeta que o franchising americano deve chegar a 845 mil unidades em 2026, com expansão moderada de 1,5%, o que reforça a ideia de avanço com mais disciplina do que euforia.

Na expansão internacional, o aprendizado é ainda mais duro. O erro clássico continua sendo aceitar a primeira proposta vinda de fora como se presença global, por si só, fosse estratégia. O documento-base é feliz ao insistir em uma lógica menos vaidosa e mais econômica: o objetivo final não é presença global, mas lucro global. Isso passa por perguntas que muitos grupos evitam enfrentar com honestidade. O modelo já é lucrativo no país de origem? Ele é replicável fora? O parceiro local domina capital, ponto comercial, operação e adaptação cultural? Também ajuda a explicar por que modelos como master franquia perderam espaço relativo em mercados mais relevantes, enquanto estruturas como area development, operação própria piloto e joint venture ganharam prestígio por oferecerem mais controle e menor risco de desalinhamento.

Esse cuidado se torna ainda mais importante quando a marca cruza fronteiras. O custo do erro fora do país de origem costuma ser mais alto, tanto financeiramente quanto em reputação. Adaptar mix, preço, comunicação, meios de pagamento, operação imobiliária e até treinamento não é detalhe, é condição de sobrevivência. A ABF já vinha registrando, em ciclos anteriores, uma expansão importante das marcas brasileiras no exterior, mas o movimento recente revela mais do que aumento de presença: revela uma seleção mais criteriosa de destinos e uma valorização crescente da maturidade operacional. O setor continua avançando, mas com um entendimento mais claro de que presença internacional, sozinha, não garante resultado.

A melhor leitura para 2026 talvez seja esta: o novo franchising continua ambicioso, mas passou a desconfiar do improviso. A expansão nacional tende a premiar redes com governança, inteligência comercial e capacidade real de suporte. A expansão internacional tende a favorecer marcas que entendem adaptação sem descaracterização e que entram em novos mercados com estrutura, capital e parceiro certo. O debate que saiu de Las Vegas e ganhou corpo no mercado não aponta para menos crescimento. Aponta para um crescimento melhor, mais seletivo e, por isso mesmo, mais durável.

Related posts
Franquia

Flytour Franchising aposta em mercado estratégico de Brasília com modelo de franquia para viagens corporativas

3 Mins read
Com foco em tecnologia, humanização e gestão eficiente de viagens, nova operação liderada por Thiago Alexandre quer reposicionar o mercado corporativo no…
Franquia

BeFly Travel inaugura sua 1ª unidade na Região Norte do Brasil reforçando seu modelo multimarcas e atendimento consultivo

2 Mins read
Nova unidade marca avanço estratégico da rede na cidade de Boa Vista, em Roraima e reforça movimento de interiorização do turismo brasileiro…
Franquia

Do campo à franquia: como o agro está abrindo caminho para novos empreendedores no interior

2 Mins read
Crescimento do setor rural impulsiona modelos de negócio especializados e cria oportunidades para quem quer empreender longe dos grandes centros Longe dos…