Finanças

Fusão entre Marfrig e BRF levanta alertas jurídicos e preocupa minoritários, avalia especialista

2 Mins read
Vanderlei Garcia Jr é especialista em Direito Societário
Divulgação/M2 Comunicação
Vanderlei Garcia Jr é especialista em Direito Societário Divulgação/M2 Comunicação

Proposta vem gerando repercussões não só no mercado financeiro, mas também no campo jurídico

A proposta de fusão entre Marfrig e BRF, que envolve a incorporação total da BRF pela Marfrig e a mudança da sede da nova companhia para os Estados Unidos, vem gerando repercussões não só no mercado financeiro, mas também no campo jurídico. O movimento é considerado complexo e carrega uma série de desafios do ponto de vista societário, concorrencial e regulatório.

Embora a Marfrig já detenha mais de 50% do capital da BRF, a incorporação representa uma mudança estrutural profunda, que precisa observar rigorosamente os ritos previstos na Lei das Sociedades por Ações. “A proposta de incorporação total exige o máximo cuidado com a proteção dos minoritários e com o dever fiduciário dos administradores das duas companhias”, explica o advogado Vanderlei Garcia Jr, sócio do Ferreira & Garcia Advogados e especialista em Direito Societário.

Um dos principais pontos de tensão está na relação de troca proposta – 0,8521 ação da Marfrig para cada ação da BRF. De acordo com o especialista, esse índice tem sido alvo de críticas de acionistas minoritários, que alegam não refletir adequadamente o valor atual da BRF. “Essa discussão está diretamente ligada ao dever de equidade e à necessidade de transparência, sobretudo em operações entre partes relacionadas, como é o caso, já que a Marfrig é controladora de fato da BRF”, diz.

Além disso, a decisão de transferir a sede da nova companhia para os Estados Unidos também gera inseguranças do ponto de vista jurídico, especialmente para investidores brasileiros. “Ao migrar para os EUA, os acionistas passam a estar sujeitos à legislação norte-americana, que é bem diferente da brasileira. Isso pode significar uma redução nos direitos de minoritários, especialmente em temas como recesso, tag along, responsabilidade dos administradores e acesso à informação”, alerta Garcia.

Outro fator de impacto é o possível exercício do direito de retirada por parte dos acionistas que discordarem da operação. “Se um número relevante de investidores optar pelo recesso, a companhia terá que fazer desembolsos expressivos, o que pode comprometer a liquidez, reduzir a capacidade de investimentos e até limitar a distribuição de dividendos no curto prazo”, explica o advogado. Ele acrescenta que esse movimento também pode gerar efeitos na governança da nova empresa, afetando a representatividade dos minoritários.

Do ponto de vista concorrencial, a operação ainda depende da aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), que foi estabelecida como cláusula suspensiva. Segundo Garcia, esse é um ponto crucial para a concretização do negócio. “Caso o Cade imponha restrições severas, como venda de ativos ou compromissos de comportamento, isso pode até inviabilizar o modelo de negócios proposto”, pontua.

O especialista ainda faz um alerta em relação às sanções em caso de descumprimento da cláusula suspensiva. “Se as empresas começarem a operar de forma conjunta antes da aprovação formal do Cade, podem ser penalizadas por gun jumping, com multas que chegam a R$ 60 milhões, além da nulidade dos atos e a reversão dos efeitos da operação”, conclui.

Fonte:

Vanderlei Garcia Jr. – Especialista em Direito Societário e Fusões e Aquisições, sócio do Ferreira & Garcia Advogados.

Related posts
EducaçãoFinanças

Como ensinar educação financeira brincando? Mackenzie e Instituto Marina e Flávio Guimarães levam o tema a jovens atletas

3 Mins read
Gincana em Belo Horizonte combinou jogos, desafios e trabalho em equipe para abordar o uso consciente do dinheiro Como transformar conceitos financeiros…
Finanças

Especialista comenta volatilidade do dólar pós eleições e perspectivas para o câmbio

1 Mins read
O resultado das eleições provocou um dos movimentos mais intensos do câmbio nos últimos anos. “Após semanas sustentado pelo carry trade e…
FinançasGestão Publica

Empréstimo dos Correios pode virar dívida pública? Entenda o risco para os cofres da União

3 Mins read
Garantia federal de R$ 7 bilhões reacende debate sobre responsabilidade fiscal e os limites do socorro financeiro a empresas estatais A autorização…