Negócios

Indústria têxtil vê riscos ao bolso do consumidor: escassez de fios pode encarecer roupas em 30%

3 Mins read

Enquanto a Rio Fashion Week aponta uma temporada de inovação, mercado sofre com sobretaxas e bloqueios

O consumidor brasileiro deve sentir alta nos preços das roupas nos próximos meses. Em um momento em que a moda nacional ganha força, impulsionada por eventos como a volta da Rio Fashion Week e por tendências como o athleisure, uma combinação de fatores fora das passarelas já começa a pesar no bolso.

No centro da discussão está o fio de poliamida 6, conhecido como PA6, uma matéria-prima essencial para a fabricação de tecidos que exigem elasticidade, leveza, resistência, toque macio e secagem rápida. É ele que garante desempenho e conforto a peças como leggings, tops esportivos, biquínis, maiôs, lingeries, meias e roupas com compressão ou ajuste ao corpo, produtos que dialogam diretamente com as tendências apresentadas na semana de moda do Rio (RFW).

O problema é que esse insumo pode ficar ainda mais caro. Está em discussão a aplicação de uma sobretaxa de até 108% sobre o fio importado, medida que se soma a outro desafio enfrentado pela indústria: atrasos na chegada da matéria-prima importada, em meio às tensões internacionais que afetam o transporte marítimo global. Na prática, a conta deve chegar ao consumidor. A estimativa do setor é que roupas feitas com esse tipo de material, comuns no guarda-roupa dos brasileiros, possam subir até 30%. 

Mercado aquecido e risco de escassez 

avanço do athleisure ajuda a explicar por que qualquer aumento de custo na cadeia têxtil chega rápido ao consumidor. Esse segmento, que mistura moda esportiva e casual, movimentou cerca de US$ 422 bilhões no mundo em 2025 e deve quase dobrar até 2033, com crescimento médio próximo de 10% ao ano, segundo a Grand View Research. No Brasil, o ritmo é ainda mais forte: o mercado já gira em torno de US$ 15,7 bilhões e pode ultrapassar US$ 34 bilhões até 2033, com expansão anual acima de 10%. Esse avanço é puxado pela busca por conforto e versatilidade, justamente em peças como leggings, tops, moda praia e lingerie, que dependem de tecidos com poliamida 6. Com a demanda em alta e o insumo pressionado, qualquer aumento de custo tende a aparecer rapidamente no preço final das roupas. 

A preocupação ganha força porque o Brasil não produz o fio de poliamida 6 (PA6), enquanto consome cerca de 80 mil toneladas por ano desse insumo, usado amplamente pela indústria têxtil por sua capacidade de entregar performance técnica, durabilidade e melhor caimento. 

Hoje, o produto importado custa em média US$ 2,52 por quilo. Com a sobretaxa em discussão, esse valor poderia receber um acréscimo de até US$ 2,72 por quilo de fio, mais que o dobro do preço atual da matéria-prima. E o efeito gerado pela sobretaxa tende a se espalhar por toda a cadeia produtiva, que envolve malharias, tecelagens, tinturarias, confecções e varejo. 

Para o consumidor, isso pode significar menos promoções, coleções mais enxutas e preços mais altos nas araras. “Quando a sobretaxa supera o próprio valor da matéria-prima, não estamos falando de proteção, mas de inviabilização. É um insumo que simplesmente não existe no Brasil. Para muitas empresas, isso significa reduzir produção ou parar linhas inteiras”, afirma Paulo Boss Demo, sócio e COO da LIVE!, de Jaraguá do Sul, SC, empresa especializada em moda fitness. 

O risco, segundo o setor, vai além da pressão de custos e acende um alerta que pode afetar toda a cadeia têxtil, que hoje sustenta 1,4 milhão de empregos no país, segundo a Abit. 

“A aplicação de uma sobretaxa dessa magnitude sobre um insumo sem produção nacional cria um desequilíbrio estrutural na cadeia. O impacto não se limita à indústria, ele chega ao varejo, ao consumidor e ao emprego”, afirma José Altino Comper, presidente do Sintex, sindicato formado por empresários da indústria têxtil e do vestuário, em uma base territorial que abrange 18 municípios do Vale do Itajaí, um dos principais polos produtivos nacionais. 

No fim das contas, a disputa em torno da poliamida 6 sai do campo técnico e entra no cotidiano. O que está em jogo não é apenas uma discussão industrial, mas quanto o consumidor vai pagar pelas peças que hoje representam um dos segmentos mais fortes da moda brasileira.

Related posts
Negócios

Startup mosca branca surge como exceção estatística em mercado que ainda falha em escalar negócios

1 Mins read
A ideia de “startup mosca branca” ganhou força no ecossistema para descrever negócios raros que conseguem alinhar crescimento consistente, modelo financeiro sustentável,…
BusinessNegócios

Lance! apresenta evolução digital e nova estratégia de crescimento para executivos no Rio de Janeiro

1 Mins read
O Lance! consolidou sua marca como um dos principais ecossistemas de mídia esportiva do país. Em um encontro com líderes do mercado…
BusinessInformaçõesNegócios

Maristtela Pedrotti constrói trajetória empresarial unindo joalheria, relacionamento e parcerias

4 Mins read
Empreender no mercado de luxo exige mais do que desenvolver um produto. Para Maristela C. Pedrotti, proprietária da Maristtela Joias, marca que…