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Indústria têxtil vê riscos ao bolso do consumidor: escassez de fios pode encarecer roupas em 30%

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Enquanto a Rio Fashion Week aponta uma temporada de inovação, mercado sofre com sobretaxas e bloqueios

O consumidor brasileiro deve sentir alta nos preços das roupas nos próximos meses. Em um momento em que a moda nacional ganha força, impulsionada por eventos como a volta da Rio Fashion Week e por tendências como o athleisure, uma combinação de fatores fora das passarelas já começa a pesar no bolso.

No centro da discussão está o fio de poliamida 6, conhecido como PA6, uma matéria-prima essencial para a fabricação de tecidos que exigem elasticidade, leveza, resistência, toque macio e secagem rápida. É ele que garante desempenho e conforto a peças como leggings, tops esportivos, biquínis, maiôs, lingeries, meias e roupas com compressão ou ajuste ao corpo, produtos que dialogam diretamente com as tendências apresentadas na semana de moda do Rio (RFW).

O problema é que esse insumo pode ficar ainda mais caro. Está em discussão a aplicação de uma sobretaxa de até 108% sobre o fio importado, medida que se soma a outro desafio enfrentado pela indústria: atrasos na chegada da matéria-prima importada, em meio às tensões internacionais que afetam o transporte marítimo global. Na prática, a conta deve chegar ao consumidor. A estimativa do setor é que roupas feitas com esse tipo de material, comuns no guarda-roupa dos brasileiros, possam subir até 30%. 

Mercado aquecido e risco de escassez 

avanço do athleisure ajuda a explicar por que qualquer aumento de custo na cadeia têxtil chega rápido ao consumidor. Esse segmento, que mistura moda esportiva e casual, movimentou cerca de US$ 422 bilhões no mundo em 2025 e deve quase dobrar até 2033, com crescimento médio próximo de 10% ao ano, segundo a Grand View Research. No Brasil, o ritmo é ainda mais forte: o mercado já gira em torno de US$ 15,7 bilhões e pode ultrapassar US$ 34 bilhões até 2033, com expansão anual acima de 10%. Esse avanço é puxado pela busca por conforto e versatilidade, justamente em peças como leggings, tops, moda praia e lingerie, que dependem de tecidos com poliamida 6. Com a demanda em alta e o insumo pressionado, qualquer aumento de custo tende a aparecer rapidamente no preço final das roupas. 

A preocupação ganha força porque o Brasil não produz o fio de poliamida 6 (PA6), enquanto consome cerca de 80 mil toneladas por ano desse insumo, usado amplamente pela indústria têxtil por sua capacidade de entregar performance técnica, durabilidade e melhor caimento. 

Hoje, o produto importado custa em média US$ 2,52 por quilo. Com a sobretaxa em discussão, esse valor poderia receber um acréscimo de até US$ 2,72 por quilo de fio, mais que o dobro do preço atual da matéria-prima. E o efeito gerado pela sobretaxa tende a se espalhar por toda a cadeia produtiva, que envolve malharias, tecelagens, tinturarias, confecções e varejo. 

Para o consumidor, isso pode significar menos promoções, coleções mais enxutas e preços mais altos nas araras. “Quando a sobretaxa supera o próprio valor da matéria-prima, não estamos falando de proteção, mas de inviabilização. É um insumo que simplesmente não existe no Brasil. Para muitas empresas, isso significa reduzir produção ou parar linhas inteiras”, afirma Paulo Boss Demo, sócio e COO da LIVE!, de Jaraguá do Sul, SC, empresa especializada em moda fitness. 

O risco, segundo o setor, vai além da pressão de custos e acende um alerta que pode afetar toda a cadeia têxtil, que hoje sustenta 1,4 milhão de empregos no país, segundo a Abit. 

“A aplicação de uma sobretaxa dessa magnitude sobre um insumo sem produção nacional cria um desequilíbrio estrutural na cadeia. O impacto não se limita à indústria, ele chega ao varejo, ao consumidor e ao emprego”, afirma José Altino Comper, presidente do Sintex, sindicato formado por empresários da indústria têxtil e do vestuário, em uma base territorial que abrange 18 municípios do Vale do Itajaí, um dos principais polos produtivos nacionais. 

No fim das contas, a disputa em torno da poliamida 6 sai do campo técnico e entra no cotidiano. O que está em jogo não é apenas uma discussão industrial, mas quanto o consumidor vai pagar pelas peças que hoje representam um dos segmentos mais fortes da moda brasileira.

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