O arquiteto e designer de interiores Vinícius Rosaneli apresenta Brasilis, sua primeira coleção autoral de mobiliário, concebida em séries limitadas e assinadas. O lançamento marca uma nova frente em sua trajetória, ampliando para o design de produto uma pesquisa já presente em sua atuação na arquitetura e nos interiores. Em parceria com a Patio Brasil, o evento acontece no dia 22 de setembro, das 10h às 19h, data em que se comemora o Dia Nacional em Defesa da Fauna, em sintonia com um trabalho inspirado em espécies brasileiras.
A fauna brasileira é o ponto de partida de Brasilis. Em um exercício lúdico de síntese e interpretação, Vinícius Rosaneli transforma referências do mundo animal em peças de caráter escultórico e colecionável. A inspiração nas espécies amplia a reflexão para os ambientes que habitam e para a biodiversidade da qual fazem parte. Dessa conexão emerge a ideia de “Território Vivo”, que compreende o Brasil não apenas como delimitação geográfica, mas como uma trama de paisagem, cultura e permanência.
Os móveis revelam formas puristas e geométricas reduzidas à essência. A linguagem minimalista enfatiza proporção, volume e materialidade no encontro entre madeira, quartzitos e metais, explorando contrastes entre quente e frio, peso e leveza, superfície e estrutura. Os detalhes construtivos assumem papel central. Encaixes de madeira e forquilhas aparecem como referências reinterpretadas em uma linguagem contemporânea, estabelecendo um paralelo com princípios do modernismo brasileiro, sobretudo na valorização da estrutura, da matéria e da clareza formal.
UM OLHAR SOBRE BRASILIS POR CLARISSA SCHNEIDER
Quem conhece Vinícius Rosaneli percebe logo que ele pensa rápido, repara em tudo e está sempre alguns passos adiante. Talvez por isso tenha tanta graça que sua primeira coleção de móveis traga justamente uma tartaruga e um tamanduá, dois bichos que parecem viver em um outro compasso. Paulista radicado na Bahia, apaixonado pela natureza e pelos animais, ele estreia no design em São Paulo, na Pátio Brasil, com um conjunto em que cabem sua inteligência construtiva, seu humor e seu jeito muito particular de olhar o mundo.
A madeira conduz o conjunto, mas não está sozinha. Encontra a pedra, o metal, o vidro e a lona em combinações que alternam peso e leveza com precisão construtiva. Em alguns móveis, a referência ao mundo animal é direta: as mesas de centro lembram tartarugas, enquanto o banco comprido traz no corpo e no focinho a figura de um tamanduá. Em outros, a natureza aparece de maneira menos evidente, nos apoios e nos equilíbrios.
O autor não reproduz os animais, ele transforma isso em desenho. A tartaruga é uma forma baixa, circular e próxima do chão. O tamanduá está na extensão do banco, em seu corpo horizontal e na terminação alongada.
A mesa de jantar e a cadeira revelam outra dimensão dessa linguagem. Aqui a construção é mais aparente, com encaixes e tensões que mostram o pensamento do arquiteto. Cada material cumpre uma função, guardando soluções muito engenhosas.
É significativo que sua estreia no design aconteça assim, com uma coleção tão próxima de quem ele é. Vinícius é rápido, inteligente e sensível. Tem uma curiosidade que o mantém em movimento e uma rara capacidade de transformar ideias em matéria. Seu trabalho avança sem perder o vínculo com aquilo que o comove e, é nessa passagem entre o uso e o afeto, que o trabalho encontra sua qualidade poética.
Vinícius reuniu dois talentos que fazem falta: da tartaruga, a sabedoria de não ter pressa com aquilo que deve durar; do tamanduá, o focinho comprido e um faro extraordinário para encontrar o que importa. E, como ele próprio anda depressa, talvez tenha desenhado a tartaruga para lembrá-lo de ir com calma e o tamanduá para não perder o faro. O resultado é uma estréia com casco, focinho e personalidade. Coisa rara num mundo de móveis tão bem comportados.
TERRITÓRIO VIVO
Território é aquilo que pode ser medido. Vida, aquilo que nunca poderá ser contido. A tensão entre essas duas dimensões atravessa a coleção e amplia a leitura para além de sua função e de sua forma. Essa ideia dá continuidade a questões recorrentes no trabalho de Vinícius Rosaneli. Em outros projetos do arquiteto, repertório cultural, linguagem construtiva e transformação já aparecem articulados em uma mesma narrativa.
“Território não é apenas lugar, é, sobretudo, aquilo que nos habita.”
A frase sintetiza essa visão. O espaço não termina onde acaba o mapa. Ele permanece na memória, na matéria e nas formas pelas quais a cultura transforma natureza em identidade.
ANCESTRALIDADE E MEMÓRIA
O campo simbólico de Brasilis encontra um desdobramento na obra da jovem artista Isabel Eulálio, escolhida para o convite do lançamento. Na obra de Isabel, a paisagem reúne os quatro elementos que atravessam a narrativa da coleção. Água e Terra estruturam a composição, o voo dos guarás sugere Ar e a intensidade cromática das aves aproxima a cena do Fogo. A referência ao Manto Tupinambá expande esse olhar, conectando fauna, ancestralidade e memória cultural. Criada por Isabel aos 12 anos, a obra introduz ainda uma ideia de futuro. O olhar de uma nova geração projeta essa herança adiante, reforçando uma compreensão do Brasil como espaço vivo e em permanente construção. A artista estará presente no vernissage para assinar a obra.








