Parcelamento sai do varejo e avança sobre serviços essenciais
O parcelamento, tradicionalmente associado ao varejo e à aquisição de bens duráveis, começa a avançar sobre um território até então pouco explorado: serviços essenciais, como transporte e manutenção residencial. Em um movimento ainda incomum, empresas passam a absorver o custo financeiro do crédito, indicando uma mudança na função do parcelamento — que deixa de estimular consumo e passa a viabilizar acesso e previsibilidade em um cenário de renda pressionada.
No Brasil, os números ajudam a explicar a mudança. Em 2025, os gastos com passagens rodoviárias passaram a comprometer, em média, 12,1% da renda per capita, segundo cruzamento de dados do IBGE com o IPCA. Em muitas famílias, deslocamentos deixaram de ser uma despesa discricionária e passaram a competir com itens essenciais do orçamento doméstico.
É nesse contexto que o parcelamento começa a ser incorporado em setores nos quais a decisão de consumo não é opcional. No transporte rodoviário, um mercado historicamente operado à vista ou com parcelamento com juros, surgem iniciativas que permitem diluir o pagamento de passagens como forma de acomodar restrições de fluxo de caixa.
Um exemplo é o Buszap, plataforma digital pioneira na venda de passagens rodoviárias 100% via WhatsApp, que passou a oferecer parcelamento sem juros em até três vezes, assumindo integralmente o custo financeiro da operação. A decisão rompe com a lógica tradicional do crédito no setor, que transfere ao consumidor tanto o custo do financiamento quanto o risco da operação.
“A questão não é fazer o cliente gastar mais, mas permitir que ele consiga viajar sem desorganizar o orçamento”, afirma Victor Coutinho, CEO do Buszap. “Em muitos casos, a viagem é essencial e não pode ser adiada.”
Movimento semelhante começa a ganhar tração nos Estados Unidos, especialmente no mercado de serviços residenciais, outro segmento tradicionalmente resistente ao parcelamento. Despesas imprevisíveis, como manutenção doméstica, passam a ser financiadas como resposta a um consumidor mais atento à previsibilidade financeira.
O mercado de Buy Now, Pay Later nos EUA deve atingir US$ 127 bilhões até 2026, segundo estimativas da Research and Markets. Diferentemente do varejo, porém, a expansão ocorre com maior ênfase em mecanismos de governança. Modelos que incorporam escrow accounts mantêm o valor do serviço retido até sua execução adequada, reduzindo riscos para clientes, prestadores e plataformas, além de evitar antecipação artificial de receitas.
“O crédito só é sustentável quando vem acompanhado de controle”, afirma Marcos Mazieri, CFO da Houser, startup que automatiza serviços residenciais. “O escrow pode limitar a participação de quem tem menor liquidez, já que exige o comprometimento antecipado de capital. Combinando liberações parciais, análise de crédito ou seguros substitutos, ele se torna uma ferramenta eficaz de inclusão financeira.”
Apesar de atuarem em mercados distintos, executivos desses setores convergem em um diagnóstico comum: o crédito está sendo redesenhado como parte da infraestrutura dos serviços, e não mais como instrumento de estímulo ao consumo.
Enquanto no Brasil o parcelamento é uma prática consolidada, nos Estados Unidos ele surge como inovação tecnológica. Em ambos os casos, a lógica é semelhante: um consumidor mais racional, menos impulsivo e mais sensível à previsibilidade do orçamento.
A entrada do crédito, especialmente em modelos que absorvem o custo financeiro e incorporam estruturas de governança, em áreas como mobilidade e moradia, sinaliza uma transformação estrutural no mercado de crédito. A tendência sugere que o futuro do setor pode estar menos ligado ao varejo tradicional e mais à forma como serviços essenciais são organizados, acessados e financiados.








