Gastronomia

Muito além do verão: gelato artesanal conquista o paladar e o bolso do brasileiro

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Sorvetes da turma - formatura-Créditos da foto: Divulgação
Sorvetes da turma – formatura-Créditos da foto: Divulgação

Movimentando R$13 bilhões ao ano, setor investe em ingredientes naturais, histórias autênticas e capacitação

Tradicionalmente associado aos dias quentes de verão, o gelato artesanal vem conquistando um espaço de destaque no mercado gastronômico brasileiro — e durante o ano todo. Com receitas autorais, ingredientes naturais e uma proposta que une sabor e sofisticação, o segmento cresce nas grandes cidades e atrai tanto consumidores em busca de experiências mais saudáveis quanto empreendedores atentos à alta lucratividade do setor.

De acordo com a Associação Brasileira das Indústrias e do Setor de Sorvetes (ABIS), o mercado de sorvetes movimentou mais de R$ 13 bilhões em 2024, com uma fatia cada vez mais relevante destinada à produção artesanal. São Paulo, Belo Horizonte e Curitiba, por exemplo, registram o surgimento acelerado de redes que investem em técnicas italianas e estética refinada.

Para quem deseja empreender, o gelato artesanal se tornou uma ótima fonte de renda, com margens de lucro que podem ultrapassar os 400% sobre o custo de produção. A venda direta ao consumidor, somada à possibilidade de expansão via delivery, quiosques, franquias ou parcerias com cafeterias, transforma o produto em um modelo escalável e rentável — desde que haja planejamento e diferenciação.

“Com o planeamento adequado, é possível começar com uma pequena loja de bairro e crescer com consistência. Mas é essencial adotar uma identidade própria e conhecimento técnico”, explica Mirko Stortini, mestre gelatiere e fundador da Gelato Academy.

Com sede em Indaiatuba (SP), a escola é a primeira do país a oferecer formação de gelatiere, com cursos presenciais e online para quem deseja iniciar ou aprimorar negócios no ramo. A grade abrange desde o balanceamento técnico das receitas até temas de precificação, gestão de produção e posicionamento.

O avanço do setor está diretamente ligado a tendências contemporâneas de consumo. Entre elas, a busca por produtos mais saudáveis — como versões sem lactose, com menos açúcar e opções veganas —, a valorização do visual (muito impulsionada pelas redes sociais), e o interesse por marcas com propósito e histórias reais.

Empreendedores têm apostado também na personalização do cardápio, com receitas que resgatam sabores regionais, sazonalidade dos ingredientes e até mesmo ingredientes exóticos ou de origem controlada. Foi isso que fez Carlos Ferreira, fundador da Gelateria Damazônia, uma rede focada em sorvetes com sabores do Norte.

“Queremos trazer a essência da Amazônia em cada sabor, usando ingredientes locais e oferecendo ao público uma experiência que remete à riqueza cultural e natural da nossa região”, explica o paraense, fundador da marca, que possui opções variadas de sabores como bacuri, taperabá e tapioca.

Para Carlos, a escola do segmento foi um acerto – com mais de sete unidades próprias no Pará, a marca se tornou franquia no ano passado, abrindo uma unidade no Rio de Janeiro, e com mais quatro aberturas confirmadas em São Paulo para os próximos meses.

O crescimento do e-commerce e o avanço da tecnologia também abriram novas possibilidades para o setor. Gelaterias cloud, dark kitchens e cozinhas compartilhadas oferecem alternativas com menor custo de operação, facilitando a entrada de novos empreendedores no mercado.

Apesar das inúmeras oportunidades que o mercado oferece, especialistas ressaltam que o crescimento acelerado do setor também impõe desafios importantes para os novos empreendedores. Um dos principais riscos identificados é a tentativa de replicar modelos de negócios já consolidados, sem agregar uma identidade própria ou um diferencial competitivo real.

“O mercado está em franca expansão, o que é muito positivo, mas também começa a se saturar com um grande número de cópias. Vejo muitas gelaterias abrindo que funcionam basicamente como réplicas de grandes marcas conhecidas ou que tentam imitar modelos de delivery sem apresentar qualquer autenticidade”, alerta Mirko.

Para ele, essa falta de originalidade é um problema grave, pois impede que o negócio construa uma conexão verdadeira com o público e dificulta a fidelização dos clientes. “A autenticidade é um dos pilares para garantir a longevidade e a relevância da marca. Sem ela, o empreendimento corre o risco de ser apenas mais uma alternativa passageira, sem sustento real para crescer e se diferenciar”, completa.

Combinando sabor, identidade e propósito, o gelato artesanal deixa de ser apenas um refresco para dias quentes e se consolida como símbolo de uma nova forma de consumir: mais consciente, mais criativa e muito mais conectada com as histórias que alimentam o paladar — e também o coração — dos brasileiros.

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