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Nas refeições, o dólar também senta à mesa

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*Por Eudes Silveira

Você não comprou vinho francês, queijo italiano nem salmão chileno. Passou na feira, escolheu alguns tomates e levou para casa. Uma salada simples, sem nenhum luxo importado. Então, por que o dólar teria alguma coisa a ver com essa conta?

Porque o tomate pode ser brasileiro, mas parte do custo para produzi-lo pode ter origem internacional. Fertilizantes, matérias-primas de defensivos e componentes de equipamentos utilizados na lavoura podem vir de outros países. Você paga em reais na banca, mas alguns custos daquela produção acompanham o mercado externo.

O dólar não aparece na sacola, mas pode participar da compra.

Costumamos associar importação ao produto pronto. Um azeite espanhol anuncia sua origem no rótulo. Já o tomate cultivado no interior de São Paulo parece ter uma história inteiramente local. Só que o endereço da fazenda não revela de onde veio tudo o que foi necessário para produzir o alimento.

Um fertilizante comprado no exterior, por exemplo, carrega despesas de transporte, seguro, movimentação portuária e entrega até o destino. Se a negociação é feita em dólares, a variação cambial também entra na conta. O fornecedor pode manter seu preço e, ainda assim, a compra ficar mais cara em reais.

Para o agricultor, essa despesa chega antes da receita. Ele investe na lavoura sem saber exatamente quanto receberá pela colheita. E não pode simplesmente acrescentar o aumento dos insumos ao preço do tomate: precisa negociar nas condições que o mercado oferece. Quando não consegue repassar o custo, sua margem diminui.

Isso também impede uma conclusão fácil: tomate caro não é sinônimo de dólar alto. Clima, oferta, demanda e perdas na distribuição influenciam o preço. Uma colheita abundante pode aliviar a conta do consumidor mesmo com insumos mais caros. Uma quebra de produção pode encarecê-la sem nenhuma mudança no câmbio.

A importação é uma peça desse quebra-cabeça. Seu impacto pode levar tempo, ser absorvido parcialmente ao longo da cadeia ou se somar a outras pressões. Mas ela ajuda a explicar por que acontecimentos distantes da fazenda podem afetar tanto quem produz quanto quem compra.

Há ainda o custo da urgência. A lavoura tem calendário, e um insumo que chega atrasado pode exigir uma compra emergencial, com menos opções e menos tempo para negociar. Uma oferta barata na origem perde a vantagem se não atende à necessidade da produção.

Por isso, discutir competitividade no agro também é discutir fornecedores, rotas e infraestrutura. Ampliar a produção nacional de insumos e diversificar as origens das compras são caminhos para reduzir a exposição a imprevistos. Ao mesmo tempo, importar permite acessar tecnologias e alternativas que podem melhorar a produtividade. O desafio está em fazer essa relação funcionar a favor do campo.

Essa discussão parece distante da feira, mas conecta duas preocupações muito próximas: a margem do agricultor e o orçamento de quem consome. Entre uma e outra, existe uma cadeia de custos que começa bem antes de o alimento aparecer na banca.

Na próxima compra, o tomate continuará sendo vendido em reais. Mas você pode passar longe da prateleira de importados e, mesmo assim, encontrar o comércio internacional no almoço. O dólar também senta à mesa, mesmo quando ninguém o convidou.

*Eudes Silveira é gerente de Desenvolvimento de Negócios e Produtos Internacionais e atua em comércio exterior e logística internacional.

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