Fabio Aquino, CEO da FME Management, analisa como a lentidão na tomada de decisões pode comprometer investimentos, reduzir oportunidades econômicas e atrasar soluções essenciais para o desenvolvimento dos municípios brasileiros.
No mundo empresarial, sabemos que decisões adiadas possuem consequências. Uma oportunidade de investimento pode desaparecer, uma inovação pode perder relevância e um concorrente pode ocupar o espaço deixado por quem demorou a agir.
Na gestão pública, essa realidade também existe. Entretanto, seus efeitos podem ser ainda mais amplos, porque envolvem recursos coletivos e necessidades da população.
Um município que demora anos para decidir como ampliar sua infraestrutura educacional não enfrenta apenas um problema administrativo. Ele pode estar adiando a criação de vagas escolares, a geração de empregos e a melhoria das condições de vida de milhares de famílias.
O mesmo acontece quando projetos de saúde, mobilidade, saneamento ou esporte permanecem indefinidamente na fase de discussão.
A ausência de uma decisão também produz consequências econômicas.
E nem sempre essas consequências aparecem de maneira clara nos relatórios orçamentários.
O custo que não aparece nas contas públicas
Existe uma diferença importante entre o custo de realizar um investimento e o custo de permanecer sem ele.
Quando um gestor analisa a construção de uma unidade de saúde, por exemplo, normalmente considera o valor da obra, os equipamentos necessários e as despesas de funcionamento.
Mas quanto custa manter uma população com dificuldade de acesso aos serviços?
Quanto custa adiar a implantação de um centro esportivo capaz de ampliar oportunidades para crianças e jovens?
Quanto custa não modernizar uma infraestrutura que limita a atividade econômica de determinada região?
Essas perguntas deveriam fazer parte das decisões estratégicas.
Isso não significa defender investimentos precipitados ou contratos assinados sem estudos adequados.
Pelo contrário.
Uma decisão responsável exige informação, planejamento, avaliação de alternativas e análise de riscos.
O problema surge quando a busca por segurança se transforma em incapacidade permanente de avançar.
Planejamento não pode ser confundido com imobilismo
O Brasil possui municípios com necessidades conhecidas há décadas.
Faltam equipamentos públicos, estruturas precisam de modernização e serviços essenciais enfrentam limitações.
Em muitos casos, o diagnóstico já existe.
O que falta é transformar esse conhecimento em projetos viáveis.
Uma administração pública precisa ser capaz de identificar prioridades, desenvolver estudos, avaliar fontes de financiamento e escolher o modelo de contratação mais adequado.
As Parcerias Público-Privadas e as concessões podem representar alternativas relevantes, desde que apresentem viabilidade técnica, econômica, jurídica e fiscal.
Entretanto, esses instrumentos não devem ser utilizados apenas porque o município enfrenta restrições orçamentárias.
É necessário demonstrar que a parceria oferece benefícios concretos, responsabilidades bem definidas e capacidade de entregar serviços durante toda a vigência contratual.
O objetivo não deve ser simplesmente tirar um projeto do papel.
Deve ser encontrar uma solução sustentável para uma necessidade pública.
A velocidade precisa caminhar com a responsabilidade
Na minha avaliação, um dos diferenciais das administrações públicas mais preparadas será a capacidade de tomar decisões fundamentadas em tempo adequado.
Isso exige equipes técnicas qualificadas, integração entre secretarias, processos transparentes e uma cultura de gestão orientada a resultados.
Um projeto não pode depender exclusivamente da vontade de uma pessoa.
Ele precisa estar apoiado em informações consistentes e em uma estrutura institucional capaz de conduzi-lo.
Também é necessário reconhecer que determinadas decisões possuem janelas de oportunidade.
Condições de financiamento mudam, prioridades econômicas evoluem e o interesse dos investidores pode ser direcionado para outros mercados.
Quando um município demora excessivamente para organizar seus projetos, corre o risco de perder oportunidades que poderiam beneficiar sua população.
Essa realidade exige uma nova mentalidade.
O gestor público não deve ser avaliado apenas por evitar riscos administrativos.
Também precisa demonstrar capacidade de enfrentar problemas, construir soluções e entregar resultados.
O verdadeiro indicador de eficiência
Durante muito tempo, o debate sobre eficiência pública esteve concentrado na redução de despesas.
Controlar gastos continua sendo indispensável.
Entretanto, uma administração pode apresentar equilíbrio financeiro e, ao mesmo tempo, deixar de realizar investimentos essenciais para seu desenvolvimento.
Por isso, considero que eficiência não significa apenas gastar menos.
Significa utilizar os recursos disponíveis de maneira inteligente para produzir o maior benefício possível à sociedade.
Em determinadas situações, investir corretamente hoje pode evitar custos muito superiores no futuro.
Em outras, a melhor decisão será revisar ou abandonar um projeto cuja viabilidade não esteja demonstrada.
O importante é que essas escolhas sejam feitas com critérios claros e responsabilidade.
O Brasil precisa de gestores que compreendam o valor econômico do tempo.
Porque oportunidades perdidas dificilmente aparecem como despesas nos balanços públicos.
Mas seus efeitos podem ser percebidos durante muitos anos.
Uma cidade não perde competitividade apenas quando faz investimentos equivocados. Também pode perder quando deixa de tomar, no momento certo, as decisões necessárias para seu futuro.
Sobre o autor
Fabio Aquino é CEO da FME Management, empresa especializada no desenvolvimento e na estruturação de projetos de infraestrutura, concessões e Parcerias Público-Privadas (PPPs), com atuação voltada à modernização da gestão pública, à atração de investimentos e ao desenvolvimento econômico.








