Tecnologia

O diferencial voltou a ser humano?

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*Por Mauricio Mansur

No Web Summit Rio 2026, executivos de Microsoft, SAP e Replit partiram da mesma premissa, reforçando que a tecnologia será infraestrutura. O que vier acima dela é que vai separar empresas relevantes das descartáveis

Tem um momento específico em que uma tecnologia deixa de ser vantagem competitiva e se transforma em condição de operação. A eletricidade,a  internet e a computação em nuvem passaram por isso. E agora é a vez da inteligência artificial. No primeiro dia de palestras do Web Summit Rio 2026 ficou impossível ignorar esse fato..

O evento chegou à sua quarta edição no Riocentro, no Rio de Janeiro, com mais de 34 mil participantes, 1.500 startups e uma programação que, pela primeira vez, não gira ao redor de “o que é IA” nem de “como implementar IA”. A pergunta que domina os corredores, os painéis e as masterclasses desta edição é: como continuar relevante quando todo mundo já usa IA?

Essa evolução em quatro anos diz muito sobre o estado do mercado. Em 2023, o foco ficou em apresentar a IA. Em 2024, mudou para começar a usar. Em 2025, o tema  integração tomou conta das discussões, trazendo à tona como encaixa a IAr nos processos. Em 2026, a questão é de sobrevivência competitiva. Quem parou em qualquer um dos estágios anteriores já está jogando um jogo menor do que os concorrentes que avançaram.

O perfil das empresas travadas é surpreendentemente homogêneo. São organizações que adotaram IA como ferramenta de produtividade individual mas não transformaram seus processos. Usam IA para resumir reuniões, gerar rascunhos de e-mail, montar apresentações. São mais rápidas em tarefas isoladas. Só que a velocidade de execução individual não equivale a transformação organizacional.

É exatamente esse gap que Michele Catasta, presidente e head de IA da Replit, endereça com uma precisão incômoda. Catasta lidera a plataforma que levou o desenvolvimento de software para a era dos agentes: em 2024, arquitetou e conduziu o lançamento do Replit Agent, produto que comprime em minutos processos que antes levavam dias. Sua tese no Web Summit Rio é: agentes de IA estão reduzindo drasticamente a distância entre ideia e execução de software. Quando construir um produto digital se torna acessível a qualquer pessoa com um problema relevante para resolver, o valor da programação migra para a capacidade de identificar os problemas certos. A empresa que ainda usa IA para otimizar tarefas enquanto concorrentes usam agentes para criar novos produtos está comparando uma bicicleta com um avião e achando que pedalar mais rápido resolve.

Brad Smith, presidente da Microsoft, traz uma perspectiva que complementa a de Catasta sem contradizê-la. Seu argumento central é que o acesso à tecnologia não é suficiente. Educação, capacitação e confiança serão os verdadeiros diferenciadores nessa transição. Smith tem falado sobre a divisão entre os que têm acesso à IA e os que ficam para trás, um problema que não é só tecnológico. É econômico e social. No contexto corporativo, a consequência é que quem aprender a trabalhar com agentes de IA terá vantagem estrutural sobre quem continuar operando processos individuais, por mais produtivo que seja individualmente.

Alicia Tillman, CMO global da SAP e uma das executivas de marketing mais influentes do mundo segundo a Forbes, representa uma terceira corrente que cresce a cada edição do evento. Sua premissa é que, num ambiente onde a capacidade tecnológica se iguala progressivamente entre os players, a diferenciação genuína passa por marca, relacionamento e experiência. Não é uma posição anti tecnologia e sim o reconhecimento de que tecnologia sozinha não sustenta lealdade, não gera significado e não cria pertencimento.

Quando você coloca essas três perspectivas lado a lado, um consenso emerge com clareza. Microsoft, SAP, Replit e Google estão partindo da mesma premissa fundamental: IA será infraestrutura. O diferencial estará acima da infraestrutura. Dados proprietários, velocidade de implementação, cultura de experimentação, confiança, marca, capacidade de execução. Esses são os ativos que não se replicam com uma assinatura de software.

Há um detalhe na programação do evento que diz mais do que qualquer painel de IA: o Web Summit Rio 2026 reservou espaço no palco principal para executivos de mídia debaterem quem é dono da verdade. Uma conferência de tecnologia para discutir credibilidade e significado está reconhecendo que a questão central migrou do código para a cultura. Num momento em que qualquer organização com acesso a um bom modelo de linguagem consegue produzir conteúdo em escala industrial, o recurso escasso passou a ser a capacidade de fazer esse conteúdo significar alguma coisa para alguém. Atribuir sentido é, por enquanto, ainda território humano. 

A visão sobre o futuro do trabalho que circula pelo Riocentro esta semana não é mais apocalíptica nem ingenuamente otimista. Não é que a IA vai acabar com empregos, nem que vai criar empregos em igual quantidade. A leitura predominante é que a IA vai reconfigurar funções, e quem entender isso cedo sairá na frente. O profissional que sabe orquestrar agentes tem uma alavancagem que o profissional que apenas usa ferramentas não tem. A diferença não é de ferramenta e sim de  mentalidade operacional.

O Web Summit Rio chegou à maturidade ao mesmo tempo em que o debate sobre IA amadureceu. Quatro anos atrás, o evento introduzia a tecnologia para um público que ainda estava aprendendo a soletrar “machine learning”. Hoje, o Riocentro reúne 34 mil pessoas que, em sua maioria, já usam IA no dia a dia e chegaram com uma pergunta diferente: como essa tecnologia me torna mais relevante, mais difícil de substituir, mais valioso para quem precisa do que eu entrego?

A resposta, por ironia ou justiça poética, passa pelo que há de mais humano: julgamento, confiança, relacionamento e a capacidade de decidir o que realmente importa fazer.

*Maurício Mansur está acompanhando o Web Summit 2026, é fundador da IAMKT, consultoria especializada em IA aplicada ao marketing, e atua como conselheiro e palestrante em inovação e transformação digital. Mestre em Marketing pela UFMG e MBA pela Fundação Dom Cabral, é referência na aplicação prática de inteligência artificial em estratégia e resultados de negócio.

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