Por Felipe Beraldi, economista da Omie
A transição para o novo modelo tributário trouxe um desafio duplo e imediato às pequenas e médias empresas (PMEs). O setor se deparou com a exigência de adaptar a emissão de seus documentos fiscais ao novo cronograma e, simultaneamente, com um impasse. Com a coexistência de dois sistemas de impostos pelos próximos seis anos, desaparece a chamada “receita de bolo”. Ou seja: não existe mais uma única orientação tributária aplicável a todas as pequenas e médias empresas (PMEs), materializada no Simples Nacional.
A decisão entre permanecer no regime anterior ou migrar para o novo Simples Híbrido exige uma avaliação minuciosa das operações de compra e venda. A opção pelo modelo composto permite que a empresa mantenha certos benefícios do regime anterior, mas trate a tributação por fora, com alíquota padrão, viabilizando a apropriação e a geração de créditos tributários integrais. Contudo, a eficácia dessa escolha depende diretamente da capacidade do negócio de calcular, de forma detalhada, se esses créditos são suficientes para neutralizar o impacto da alíquota nas aquisições.
E esse é um dos principais pontos de atenção. Para que a melhor escolha seja tomada, os gestores precisam mapear o perfil exato de seus fornecedores e clientes. Se não o fizerem, é possível que haja prejuízos a médio e longo prazo.
“Por que isso?”, você deve se perguntar. É que nesse novo ambiente, a capacidade de gerar e repassar crédito torna-se o principal vetor de competitividade. Explico: no mercado entre empresas, o custo final de um fornecedor não será avaliado apenas pelo valor de face estampado na nota fiscal, mas pelo valor líquido resultante após o desconto do crédito tributário que aquela compra irá gerar ao cliente. Sendo assim, a janela entre os meses de setembro e novembro passou a ser um período crucial de tomada de decisão para que as empresas simulem cenários e validem a estratégia que norteará o primeiro semestre de 2027.
Entretanto, o ano de 2026 não pode ser tratado como um mero período de alíquota teste, porque essa visão reducionista subestima o impacto e a complexidade das mudanças em curso. Na realidade, o ano de 2026 passa a ser uma janela de preparação obrigatória, na qual decisões estratégicas e ajustes operacionais precisam ser consolidados com base nas avaliações feitas agora.
Os empresários devem compreender que a estruturação competitiva para o ano seguinte começa no presente. Negligenciar essa necessidade de antecipação significa entrar no novo sistema em desvantagem, lidando com riscos de conformidade em um cenário onde as regras dos regimes paralelos sofrerão alterações anuais.
Em suma, a reforma tributária extingue a simplicidade automática dos regimes diferenciados. A partir de agora, as PMEs têm a urgência de conciliar a adaptação imediata das notas fiscais com a definição da estratégia de creditamento para 2027. O problema central reside na quebra do conforto operacional e na obrigatoriedade de dominar a própria cadeia produtiva sob uma nova ótica de custos. Portanto, a antecipação analítica é a única via segura. As empresas que mapearem ativamente suas operações e escolherem o regime adequado neste momento garantirão não apenas a regularidade fiscal, mas a sua sobrevivência competitiva durante toda a transição.








