Com a expectativa de vida do brasileiro alcançando 76,6 anos em 2024, segundo dados da pesquisa Tábuas de Mortalidade 2024, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), envelhecer deixou de ser apenas uma conquista social para se tornar também um dos maiores desafios financeiros da atualidade. Afinal, viver mais significa precisar de mais recursos para manter a qualidade de vida durante a aposentadoria. Mas se essa previsibilidade é difícil para os trabalhadores que têm emprego formal com todos os direitos garantidos, para os profissionais liberais, ainda que tenham uma renda alta enquanto estão na ativa, fechar essa conta pode ser ainda mais desafiador.
Segundo Kaê Macedo, consultor de investimentos da Unicred Coalizão, um dos equívocos mais recorrentes é acreditar que será possível permanecer no mercado de trabalho indefinidamente. “Muitos gostam do que fazem e realmente pretendem permanecer ativos por mais tempo. Mas variáveis como saúde, mudanças de mercado e até transformações tecnológicas podem alterar esse cenário. E por isso é necessário ter condições financeiras para que continuar trabalhando ou não seja uma escolha, e não porque é preciso trabalhar por falta de alternativas de renda”, diz.
Outro erro frequente é confundir renda elevada com tranquilidade financeira no longo prazo. De acordo com o especialista, muitos profissionais dedicam décadas à construção do seu negócio, mas acabam deixando o planejamento financeiro para depois. “A falta de objetivos claros na alocação do patrimônio e uma dependência excessiva da própria atividade profissional para manutenção da renda também são grandes entraves na hora de se aposentar. Essa dependência da sua atuação direta, inclusive, acaba impedindo que o profissional consiga se ausentar do negócio. E um dos pilares do planejamento patrimonial é justamente proteger a renda na ausência do exercício da atividade profissional”.
A falsa sensação de segurança proporcionada por ganhos elevados também pode se tornar uma armadilha. Macedo explica que a constância de uma renda alta costuma gerar a percepção de que o futuro financeiro se resolverá naturalmente, quando, na prática, a construção de patrimônio exige disciplina e estratégia. “A renda é como um rio sob o moinho. E quando esse fluxo cessa, fica o questionamento: o que foi produzido foi inteiramente consumido ou também foi possível estocar? (…) O que determina a qualidade da aposentadoria não é quanto a pessoa ganhou ao longo da vida, mas o quanto da sua renda ela dedicou para construir um patrimônio produtivo. Quando não há planejamento para poupar e investir, a interrupção da atividade profissional pode representar uma queda significativa na renda e no padrão de vida”, enfatiza.
E mais: o impacto da falta de planejamento costuma ser percebido justamente quando há menos tempo para corrigir a rota. Com o avanço da idade e a redução da capacidade de geração de renda, recuperar o tempo perdido pode exigir um esforço financeiro muito maior. “A ausência de um planejamento de longo prazo pode afetar muito a renda futura desses profissionais. O principal impacto é a perda de tempo, que vai gerar maior custo ao investidor. Quando o planejamento começa tarde, o profissional precisa investir valores muito maiores para atingir os mesmos objetivos. E isso se tiver tempo hábil para esse ajuste de rota. Além disso, vejo que a falta de estratégia resulta em decisões financeiras menos eficientes ao longo da vida e corrigir isso geralmente exige uma perda financeira”, avalia Kaê.
Mas é preciso dizer que embora planejar a aposentadoria pareça ser “apenas” uma questão financeira, esse processo pode e deve ser visto como um projeto de liberdade. Afinal, o objetivo não é simplesmente parar de trabalhar, mas ter autonomia para decidir como utilizar o próprio tempo. “Quando o planejamento começa cedo e é conduzido de forma estruturada, o profissional ganha tranquilidade para fazer escolhas com mais segurança ao longo da vida. Além disso, existe uma tendência crescente de soluções financeiras mais personalizadas para profissionais liberais, considerando características específicas como renda variável, sucessão patrimonial, proteção familiar e estratégias de longo prazo”, conclui.
A seguir, Kaê Macedo responde algumas questões de forma direta, e com sugestões de investimentos, sobre dúvidas que habitualmente surgem quando o assunto é aposentadoria.
Muitos autônomos acreditam que vender o consultório, escritório ou participação em uma empresa será suficiente para garantir a aposentadoria. Essa estratégia é realmente segura?
Essa é uma estratégia complementar e exige atenção. O valor de um negócio depende de diversos fatores externos, como mercado, sucessão e demanda. Além disso, muitos consultórios e escritórios estão fortemente vinculados à imagem e à atuação do próprio profissional. Por isso, é importante construir patrimônio de forma pensada, reduzindo os riscos ou a dependência de uma futura venda.
O que muda no planejamento previdenciário e de investimentos de quem é autônomo em comparação com trabalhadores contratados pelo regime CLT?
Hoje muda pouca coisa, o autônomo precisa entender que precisa construir e proteger o patrimônio para gerar renda passiva no futuro, além de possuir um reserva para eventualidades. Da mesma forma o CLT. Porém, este está menos exposto a flutuações na renda e mudanças legais. O fato de o regime Celetista possuir fundo de garantia e contribuição ao INSS contribui apenas com uma pequena parte da sua real necessidade.
Como profissionais com renda variável podem construir uma estratégia consistente para a aposentadoria?
Eu costumo recomendar que o percentual destinado aos investimentos seja tratado como uma despesa obrigatória. Esse profissional precisa estudar a banda de variação da sua renda, trabalhando sua organização abaixo dessa média e incluir seus investimentos dentro do orçamento anual.
Qual a importância de criar fontes de renda passiva ao longo da carreira?
Renda passiva é o caminho para a independência financeira, então todo o planejamento gira em torno disso. Além disso, diversificar fontes de renda traz uma camada de segurança adicional.
Quanto custa adiar em dez anos o início dos investimentos para aposentadoria?
Esse é o custo mais caro que você pode ter. Isso porque o tempo é um fator muito mais determinante para alcançar esse objetivo do que o valor alocado. Em muitos casos, quem começa dez anos mais tarde precisa investir duas ou até três vezes mais por mês para chegar ao mesmo patrimônio final. Isso acontece porque o investidor perde justamente o período em que os juros compostos teriam mais tempo para trabalhar a seu favor.
Quais sinais indicam que um profissional está atrasado na preparação para a aposentadoria?
Um sinal claro dessa situação acontece quando não conseguimos estimar de forma realista quando podemos nos aposentar e o quanto será necessário para manter o padrão de vida no futuro.
A educação financeira ainda é um desafio para profissionais altamente qualificados em suas áreas de atuação?
Sem dúvida. É muito comum encontrar excelentes médicos, advogados, dentistas e empresários que dominam suas áreas de especialização, mas nunca se debruçaram sobre finanças pessoais e planejamento patrimonial. Conhecimento técnico e educação financeira são competências diferentes, e ambas são importantes para o sucesso de longo prazo.
O que mais surpreende você quando analisa a situação financeira de profissionais liberais próximos de se aposentar?
Chama atenção, muitas vezes, a incompatibilidade do patrimônio em relação a renda. Não é nada raro encontrar profissionais que tiveram carreiras extremamente bem-sucedidas, mas que ainda dependem fortemente da continuidade do trabalho para manter seu padrão de vida.
Que orientações você daria para quem está começando a planejar a aposentadoria aos 30, 40 ou 50 anos?
Aos 30 anos, o mais importante é começar cedo e aproveitar o poder do tempo. Aos 40, é o momento de acelerar a acumulação de patrimônio e revisar objetivos de longo prazo. Aos 50, a prioridade passa a ser consolidar o patrimônio e estruturar a futura geração de renda. Independentemente da idade, a melhor decisão é começar agora, porque o tempo perdido é um recurso impossível de recuperar.








