O Brasil registrou recorde histórico de 7.980 empresas em recuperação judicial no primeiro semestre de 2026, alta de 8% em relação a dezembro de 2025 e de 21,2% em 12 meses, segundo levantamento da RGF Bizdoc. Dentro desse cenário, a agropecuária apresentou o maior crescimento proporcional entre os setores analisados, com avanço de 66% e 1.263 empresas em recuperação. Para Hilton Junior, vice-presidente da SWOT Global Consulting, o aumento dos pedidos também evidencia uma dificuldade técnica na leitura da situação financeira das empresas do campo. “No agronegócio, ter patrimônio não significa necessariamente ter liquidez. Terra, máquinas, estoques e até uma safra futura podem representar ativos relevantes, mas não garantem capacidade imediata de honrar compromissos. A análise econômico-financeira precisa justamente separar uma crise de caixa provocada pela sazonalidade de uma empresa que perdeu capacidade estrutural de gerar recursos”, afirma.
A particularidade do agronegócio torna essa distinção ainda mais relevante porque o ciclo financeiro do setor não acompanha necessariamente o calendário de vencimento das dívidas. Uma empresa pode concentrar patrimônio em ativos de alto valor e, ao mesmo tempo, enfrentar dificuldades para financiar a operação, honrar compromissos de curto prazo ou atravessar um período de menor geração de caixa. Quando esses elementos são analisados apenas a partir do volume de dívidas ou do patrimônio declarado, existe o risco de interpretar uma crise de liquidez como insolvência ou, no sentido contrário, tratar uma deterioração estrutural como um problema passageiro de caixa.
Nesse contexto, a perícia econômico-financeira ganha importância antes e durante os processos de recuperação judicial, ao permitir uma análise mais precisa da capacidade de geração de caixa, do nível de endividamento, das garantias, da estrutura de custos e dos efeitos da sazonalidade sobre a operação. A avaliação também pode ajudar a identificar quais ativos efetivamente contribuem para a recuperação do negócio e quais, apesar de apresentarem valor patrimonial, têm pouca capacidade de resolver necessidades financeiras imediatas.
Para Hilton Junior, a qualidade desse diagnóstico influencia diretamente as decisões tomadas por credores, devedores e demais envolvidos na reestruturação. “Antes de discutir apenas quanto uma empresa deve, é preciso entender como ela funciona financeiramente, de onde vem sua geração de caixa e quais fatores estão comprometendo essa capacidade. Sem esse diagnóstico, credores podem tomar decisões com base em garantias que não resolvem o problema de liquidez, enquanto devedores podem estruturar planos que não atacam a origem da crise. A perícia ajuda a transformar uma situação financeira complexa em informações que podem ser efetivamente utilizadas na tomada de decisão”, explica.
Hilton Junior pode detalhar como uma perícia econômico-financeira é estruturada em processos de recuperação judicial no agronegócio, quais indicadores ajudam a diferenciar uma crise de caixa temporária de uma inviabilidade estrutural e quais riscos credores e devedores costumam ignorar antes da judicialização. Também pode abordar como fluxo de caixa, endividamento, capacidade de geração de recursos, garantias e sazonalidade da atividade rural devem ser analisados em conjunto para avaliar a viabilidade de uma recuperação.
“A recuperação judicial não começa quando o processo é protocolado. A qualidade das decisões tomadas antes disso pode determinar se existe, de fato, uma operação capaz de ser reorganizada. Quando o diagnóstico financeiro é superficial, o problema tende a reaparecer durante a negociação ou na execução do plano. No agro, onde o patrimônio pode ser elevado e a geração de caixa é naturalmente sazonal, entender essa diferença é ainda mais importante”, conclui Hilton Junior.








