Educação

Por que tantos alunos entram em ciclos de estresse já no primeiro trimestre

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Especialista explica que falta de direcionamento, estratégia e organização desencadeia a queda no rendimento

O primeiro trimestre do ano letivo concentra expectativas elevadas, metas ambiciosas e a promessa de que tudo será diferente. Com o avanço das semanas e o acúmulo de demandas, porém, muitos estudantes passam a repetir um padrão desgastante: deixam conteúdos se acumularem, estudam apenas sob pressão e concentram esforços na véspera das provas. O resultado é previsível: mais tensão, menor retenção do aprendizado e uma relação cada vez mais negativa com a rotina escolar.

Dados da pesquisa “Aprendizagem na Educação Básica: Situação Brasileira no Pós-Pandemia” mostram que, em 2023, apenas cerca de 5% dos alunos do ensino médio apresentaram conhecimento adequado em matemática, enquanto pouco mais de 32% alcançaram nível considerado suficiente em língua portuguesa. Os números evidenciam lacunas significativas no domínio de conteúdos essenciais e reforçam a necessidade de práticas estruturadas e acompanhamento.

Para Victor Cornetta, especialista em desenvolvimento estudantil e fundador da Kaizen Mentoria, a questão não está na falta de interesse. “Muitos jovens sabem que precisam estudar todos os dias, mas isso é muito diferente de saber como fazer. Dentro desse ‘estudar todo dia’ existem inúmeras decisões: qual disciplina priorizar, em que horário se dedicar, qual estratégia utilizar, como revisar e como praticar. Sem organização e direcionamento, a preparação vira improviso”, afirma.

Segundo ele, é equivocado interpretar a queda no rendimento como desleixo ou descuido. “Existe uma ideia comum de que o aluno já sabe exatamente o que deveria fazer e não faz porque não quer. Na prática, o que observamos é ausência de ferramentas adequadas e de orientação estratégica. Quando o objetivo está mal definido, por exemplo, estudar apenas para garantir a média, o estudante tende a fazer o mínimo necessário para alcançar aquela meta.”

O movimento de dedicação intensa antes das avaliações, seguido de esgotamento e desorganização nas semanas seguintes, cria um padrão recorrente de ansiedade. “Não é falta de esforço, é ausência de regularidade estruturada. Intensidade sem planejamento gera cansaço, não progresso”, ressalta Victor.

Cornetta utiliza uma comparação simples para ilustrar o cenário. “Todo mundo sabe que, para ser mais saudável, precisa se exercitar e se alimentar melhor. O desafio não está nessa informação, mas em organizar a rotina, fazer compras adequadas, preparar refeições, definir horários e escolher o treino correto. Se tudo isso estivesse previamente estruturado, seria muito mais fácil manter consistência. Com a aprendizagem acontece o mesmo.”

Por isso, mais do que cobrar disciplina, é essencial oferecer orientação. Estabelecer metas claras, definir critérios que vão além da nota mínima, organizar horários realistas e aplicar técnicas apropriadas transforma a experiência acadêmica. O estudante faz o melhor que consegue com os recursos de que dispõe e com o objetivo que acredita ser o adequado. Quando propósito e estratégia são ajustados, o rendimento tende a evoluir de maneira consistente.

Em vez de rótulos, o especialista defende responsabilidade compartilhada e acompanhamento qualificado. “Não se trata de culpar o jovem, mas de reconhecer que aprender é um processo complexo. Quando há planejamento, direcionamento e suporte, o ciclo de estresse dá lugar a uma rotina mais equilibrada e produtiva”, conclui.

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