Finanças

Primeiro trimestre expõe fragilidades financeiras de clínicas de saúde

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Custos fixos elevados e retomada gradual da demanda pressionam o caixa no início do ano

Janeiro de 2026 volta a escancarar um desafio recorrente para clínicas médicas e odontológicas no Brasil, o desequilíbrio financeiro do primeiro trimestre. Enquanto despesas fixas como folha de pagamento, aluguel, impostos e contratos de tecnologia seguem em patamares elevados, a demanda por atendimentos ainda passa por um período de ajuste após as festas de fim de ano e o recesso de parte dos pacientes.

Segundo o Dr. Éber Feltrim, fundador da SIS Consultoria e especialista em gestão de negócios para a área da saúde, esse descompasso costuma gerar uma falsa sensação de crise, quando, na prática, trata-se de um problema estrutural de planejamento. “O primeiro trimestre não é imprevisível. Ele se repete todos os anos. O que muda é o grau de preparo da clínica para atravessar esse período sem comprometer o caixa”, afirma.

Dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) indicam que os custos assistenciais no setor privado cresceram acima da inflação nos últimos anos, pressionando ainda mais clínicas de pequeno e médio porte. Ao mesmo tempo, levantamentos de entidades do setor mostram que o volume de consultas eletivas tende a se recuperar de forma gradual apenas a partir de março, criando um intervalo crítico entre receitas e despesas.

Feltrim aponta que um dos erros mais comuns no primeiro trimestre é tratar o fluxo de caixa de forma reativa. “Muitos gestores analisam apenas o saldo bancário, sem projeção. Isso leva a decisões precipitadas, como cortes mal planejados ou uso excessivo de crédito”, explica. Outro problema frequente é a ausência de uma reserva financeira específica para atravessar os meses de menor faturamento.

Também pesa, segundo o especialista, a falta de um controle mensal estruturado. “Sem acompanhar indicadores como margem por procedimento, custo fixo por hora clínica e ponto de equilíbrio, o gestor perde a capacidade de antecipar riscos”, diz.

No cenário atual, marcado por juros ainda elevados e maior rigor fiscal, o planejamento trimestral tem ganhado relevância. Estudos da Fundação Getulio Vargas (FGV) mostram que empresas de serviços que trabalham com projeções financeiras de curto e médio prazo reduzem em até 25% a necessidade de capital emergencial.

Para clínicas, isso significa revisar contratos, renegociar prazos quando possível e alinhar metas de faturamento à sazonalidade do setor. “Planejar o trimestre permite entender que janeiro e fevereiro exigem estratégias diferentes de meses mais fortes. Não é sobre faturar menos, é sobre gastar melhor”, resume Feltrim.

Outro fator que agrava a pressão financeira no início do ano é a falta de separação entre finanças pessoais e empresariais. Segundo o Sebrae, mais de 40% dos pequenos negócios no Brasil ainda misturam essas contas, o que compromete a leitura real do desempenho financeiro.

“No primeiro trimestre, quando a margem já está mais apertada, essa mistura pode mascarar prejuízos ou gerar retiradas acima do que a clínica suporta”, alerta Feltrim. Para ele, pró-labore definido e regras claras de distribuição de resultados são medidas básicas, mas ainda negligenciadas.

A pressão financeira do início do ano, portanto, não é um fenômeno isolado, mas um reflexo de falhas recorrentes de gestão. “Clínicas que tratam o primeiro trimestre como parte do planejamento anual, e não como um susto, atravessam esse período com muito mais previsibilidade e segurança”, conclui o especialista.

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