Mesmo com queda no estoque de processos, o Brasil ainda deve manter um volume expressivo de disputas pendentes, criando espaço para estruturas que financiam litígios, antecipam créditos e transformam direitos judiciais em liquidez.
O financiamento de disputas judiciais, modelo em que um investidor arca com os custos de um processo ou arbitragem em troca de uma participação no valor recuperado, começa a ganhar espaço como uma das novas fronteiras dos investimentos alternativos. Esse mercado deve sair de US$25,8 bilhões em 2026 para US$41,37 bilhões em 2030, com crescimento médio anual de 12,5%. Outra estimativa projeta avanço de US$26,77 bilhões em 2025 para US$43,34 bilhões em 2031, uma alta média de 8,24% ao ano. Nos Estados Unidos, principal mercado deste tipo de operação, foi registrada alta de aproximadamente 23% nos compromissos de capital em 2025, após 2 anos seguidos de retração. O valor médio das operações ficou em torno de US$8,1 milhões, com cerca de US$4,5 milhões em casos individuais e US$19,6 milhões em carteiras de processos. As carteiras responderam por 64% dos novos compromissos, a antecipação de créditos judiciais representou aproximadamente 17% e as disputas de patentes concentraram 27% do capital. No Brasil, o potencial está diretamente ligado ao tamanho da judicialização. Foram registrados 39,7 milhões de novos processos em 2025. Mesmo com o avanço das novas ações, o país entrou em 2026 com 75 milhões de processos pendentes, o menor estoque judicial em 6 anos. Mas a redução não elimina o tamanho econômico da judicialização. Projeção feita com base na entrada e julgamento registrado em 2025 indica que, mesmo que o Judiciário mantenha a produtividade, o país ainda pode encerrar 2026 e virar 2027 com mais de 70 milhões de processos pendentes. O dado mostra que a fila judicial deixou de crescer no mesmo ritmo, mas segue grande o suficiente para sustentar um mercado de financiamento de litígios, antecipação de créditos e estruturação de ativos judiciais.
Para Matheus Matos, sócio da MA7 Negócios, o crescimento desse mercado revela uma mudança importante na forma como empresas, credores e investidores passam a enxergar o contencioso. “Durante muito tempo, o processo judicial foi tratado apenas como custo, espera e incerteza. O financiamento de disputas judiciais muda essa leitura porque permite transformar uma tese jurídica bem estruturada em um ativo econômico financiável. O ponto central não é colocar dinheiro em qualquer processo, mas selecionar disputas com documentação robusta, boa probabilidade de êxito, devedor com capacidade de pagamento e valor econômico suficiente para justificar o risco”, afirma.
Na prática, o modelo permite que uma empresa ou pessoa com um direito judicial relevante consiga seguir com a disputa sem comprometer caixa próprio. O investidor assume custos como honorários, perícias, produção de provas, despesas processuais e estratégia de cobrança. Em troca, recebe uma parcela do valor recuperado em caso de vitória ou acordo. Se não houver resultado, em estruturas nas quais o financiado não assume obrigação de recompra ou devolução, o risco fica com o investidor. Para Matos, essa lógica exige uma análise cuidadosa antes de qualquer operação. “O retorno pode ser elevado justamente porque o risco também é elevado. Não existe ganho expressivo sem análise técnica, jurídica e financeira. Antes de financiar uma disputa, é preciso entender a qualidade da tese, o histórico das decisões, o tempo provável de tramitação, a capacidade de pagamento da parte contrária e a viabilidade real de execução. O investidor não está comprando uma promessa, está assumindo risco sobre um direito que precisa ser muito bem analisado”, diz.
A MA7 Negócios atua nessa intersecção entre direito, finanças e recuperação de valor. A empresa analisa créditos judiciais, processos empresariais, ativos em disputa e oportunidades ligadas a direitos que ainda não se converteram em caixa. A tese é que, em um país com milhões de processos em tramitação, parte relevante desses direitos permanece fora do radar do mercado financeiro tradicional por falta de estrutura, capital e leitura especializada. “Muitas empresas têm bons direitos, mas não têm fôlego para esperar anos até a liquidação. Outras têm disputas relevantes, mas não querem comprometer o caixa operacional com uma batalha longa. Quando o financiamento de disputas judiciais é bem estruturado, ele ajuda a equilibrar forças, dá continuidade a processos economicamente relevantes e permite que o titular do direito preserve capital para o próprio negócio”, afirma Matos.
O avanço desse modelo também acompanha a sofisticação dos ativos alternativos no Brasil. Depois do crescimento dos fundos de direitos creditórios, precatórios, créditos judiciais e ativos em situação especial, o financiamento de disputas judiciais aparece como uma nova avenida para investidores dispostos a assumir risco jurídico em busca de retornos menos ligados ao comportamento da bolsa, dos juros e do câmbio. Para o mercado brasileiro, o impacto pode ser relevante. De um lado, abre espaço para que capital privado financie disputas que antes ficavam limitadas pela falta de recursos. De outro, ajuda empresas e credores a transformar direitos judiciais em instrumentos de liquidez, governança e planejamento financeiro. Se crescer com critério, transparência e análise rigorosa, esse mercado pode reduzir a distância entre quem tem um direito reconhecível e quem tem capacidade financeira para sustentá-lo até o fim, criando um futuro em que processos relevantes deixam de perder força por falta de capital e passam a ser conduzidos com racionalidade econômica.








