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Quando foi a última vez que você escreveu à mão?

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Minha infância foi marcada por despedidas e recomeços. Meus pais se mudavam bastante, e eu hoje consigo perceber como foi difícil mudar, adaptar-me, criar vínculos e, muitas vezes, começar tudo outra vez. Ao longo da minha vida, foram 18 mudanças, não apenas de residência, mas de cidades, estados e até de país. Talvez esse espírito nômade tenha me ensinado a organizar rapidamente uma mudança e recomeçar, mas também me deixou um presente: amigos espalhados por muitos lugares.

Escrever sempre foi um prazer para mim. Aos 14 anos, eu me correspondia com 16 pessoas. Amizade à distância, naquela época (1975), era mantida por cartas. Escrevíamos à mão, colocávamos no envelope, levávamos aos Correios e esperávamos. Não existiam dois risquinhos azuis na conversa, ninguém perguntava por que você visualizou e não respondeu, e não havia resposta imediata. Existia outro tempo, um outro cuidado. Eu pensava no emprego correto das palavras, na ortografia, na construção das frases e desenhava cada letra no papel. Escrever exigia organizar o pensamento antes de entregá-lo ao outro.

A escrita caminhava junto com outra paixão: a leitura. Li José de Alencar, Érico Verissimo, Pearl S. Buck e tantos outros. Como gostava de imaginar as roupas, os tecidos, as paisagens, o aroma do café, os lugares que jamais havia visitado. Ler expandia meu mundo e enriquecia meu vocabulário. Depois, escrever me obrigava a organizar esse mundo para compartilhá-lo com alguém. Sem saber nada sobre neurociência, aquela adolescente estava submetendo o cérebro continuamente a exercícios de atenção, linguagem, memória, imaginação e elaboração.

Décadas depois, a ciência começou a investigar o que acontece quando trocamos a caneta pelo teclado. Um estudo publicado em 2024 acompanhou a atividade cerebral de 36 universitários enquanto escreviam à mão ou digitavam. Os pesquisadores encontraram padrões de conectividade cerebral mais elaborados durante a escrita manual, envolvendo redes relacionadas à atenção, memória e aprendizagem. As duas atividades não são neurologicamente idênticas. Então chegou a inteligência artificial e tornou essa conversa ainda mais interessante.

Em 2025, pesquisadores do MIT Media Lab divulgaram um experimento com 54 participantes divididos em três grupos: um grupo utilizava IA, outro recorria a mecanismos de busca como o Google e o terceiro escrevia sem ferramentas externas. A atividade cerebral foi acompanhada por eletroencefalografia. Os pesquisadores observaram diferentes padrões de conectividade entre os grupos, com maior conectividade no grupo sem ferramentas externas, níveis intermediários no grupo de busca e menor conectividade no grupo que utilizou LLM.

Talvez a pergunta não seja se devemos escrever com caneta, teclado ou inteligência artificial, mas compreender em que momento entregamos a tecnologia ao cérebro. Antes ou depois de obrigá-lo a pensar? Amo tecnologia e não tenho qualquer desejo de voltar ao mundo analógico. Utilizo inteligência artificial, estudo suas possibilidades e acredito profundamente no seu potencial.

O problema não está em usar tecnologia para ampliar nossa capacidade, mas em deixar de exercitar capacidades humanas porque uma máquina passou a realizá-las por nós. Existe uma diferença enorme entre usar inteligência artificial para pensar comigo e utilizá-la para pensar por mim. Foi aqui que minhas antigas cartas encontraram o trabalho que fazemos hoje na Blue6ix. Nas centrais de atendimento, investimos muito em tecnologia. Agora incorporamos IA em velocidade extraordinária, mas será que estamos treinando também a capacidade de pensar sobre aquilo que o cliente acabou de dizer?

Imagine um profissional que acaba de ouvir uma interação difícil. Em vez de imediatamente receber da IA a interpretação daquela conversa, ele precisa primeiro responder sozinho: qual era realmente o problema desse cliente? O que ele estava sentindo? Em que momento a conversa mudou? O que deixou de ser dito? E só depois entra a tecnologia.

Dessa reflexão surgiu uma hipótese que gostaria de testar na Blue6ix: poderíamos dividir profissionais em quatro grupos e observar não quem produziu a melhor resposta naquele momento, mas quem reteve melhor o aprendizado, quem compreendeu o problema além das palavras pronunciadas, quem identificou melhor o estado emocional e quem transferiu o aprendizado para uma situação nova.

Um dia, talvez, descubramos que a escrita manual acrescenta alguma coisa. Possivelmente, a variável crucial reside na reflexão prévia à aquisição de suporte tecnológico. A pesquisa serve justamente para substituir nossas certezas por evidências.

Minhas cartas desapareceram com o tempo. Algumas amizades também. Outras permaneceram. Hoje uma mensagem atravessa o mundo em segundos e uma inteligência artificial pode me ajudar a pesquisar, confrontar ideias e aprimorar um texto. Não trocaria essas possibilidades pela espera diante da caixa de correio.

Entretanto, penso que aquelas cartas tenham deixado uma lição que nenhuma tecnologia deveria apagar: antes de pedir ajuda para escrever, precisamos continuar tendo algo nosso para dizer. E, antes de ensinar uma máquina a responder por nós, talvez precisemos ter certeza de que continuamos ensinando nosso cérebro a pensar.

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About author
Neiva é fundadora e sócia da Blue6ix Tecnologia, empresa pioneira na América Latina em soluções de interaction analytics, experiência do cliente aplicada ao comportamento humano, onde atualmente atua como Presidente do Conselho. Com mais de 40 anos de carreira, construiu trajetória em empresas como Portugal Telecom, Contax, Dedic GPTI, CSU CardSystem e Teleperformance, atuando nas áreas de operações, qualidade, tecnologia, desenvolvimento de pessoas e experiência do cliente, incluindo atuação internacional em Lisboa, Portugal. Fundou a Blue6ix aos 56 anos e hoje dedica-se ao estudo de neurociência, comportamento humano, consumo e os impactos da inteligência artificial nas relações entre empresas e pessoas. É analista de sistemas, professora, palestrante e articulista do Jornal Empresas & Negócios.
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