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Selic a 14%: a queda dos juros e a disputa por capital em inovação no Brasil

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Por Igor Mazaki, CEO da Plug and Play Brasil

Durante anos, o Brasil ofereceu ao capital uma escolha relativamente simples: retornos elevados com risco relativamente baixo. Quando a Selic começa a cair, essa equação muda. E muda também a disputa pelo dinheiro que financia crescimento e inovação.

A decisão do Comitê de Política Monetária de reduzir a Selic para 14% ao ano, no quarto corte consecutivo do atual ciclo de flexibilização monetária, está longe de significar que o dinheiro ficou barato no Brasil. Os juros continuam altos. Mas a direção do movimento importa porque começa a alterar o custo de oportunidade do capital e, com ele, a forma como investidores e empresas avaliam risco, retorno e horizonte de investimento. Essa discussão é particularmente relevante para inovação.

Venture capital, pesquisa aplicada, transformação tecnológica e empresas em estágio de crescimento dependem de uma característica que se torna escassa em ambientes de juros muito elevados: capital disposto a esperar.

Quando aplicações conservadoras entregam retornos altos, assumir risco precisa oferecer uma recompensa ainda maior. Isso afeta diretamente startups e fundos de venture capital, mas não apenas eles. Dentro das grandes empresas, projetos de inovação também passam a disputar orçamento com alternativas mais previsíveis, investimentos são postergados e a pressão por retornos de curto prazo aumenta.

Não significa que uma redução da Selic automaticamente fará o dinheiro migrar para startups. Essa relação é muito mais complexa. Mas significa que, à medida que o retorno livre de risco diminui, ativos capazes de entregar crescimento no médio e no longo prazo voltam gradualmente a fazer mais sentido dentro da alocação de capital. E é aí que a discussão começa a ficar interessante.

Esse movimento não acontece apenas no Brasil. Os grandes ciclos de investimento em tecnologia sempre tiveram alguma relação com disponibilidade de liquidez, custo do dinheiro e disposição dos investidores para assumir risco. O momento brasileiro, porém, traz uma combinação particular: a política monetária começa a mudar de direção enquanto o país continua disputando espaço relevante na alocação internacional de capital.

Depois de dois meses de saída líquida, o investidor estrangeiro voltou à bolsa brasileira em julho, com aproximadamente R$ 4,7 bilhões de entrada líquida. No acumulado de 2026, o fluxo para ações brasileiras soma cerca de R$ 38,6 bilhões.

O comportamento não foi linear e isso importa. Maio e junho registraram saídas relevantes antes da retomada em julho. Portanto, não estamos diante de um movimento que possa ser interpretado simplesmente como um voto definitivo de confiança no Brasil. Capital global é móvel, oportunista e compara mercados o tempo inteiro. Mas há um sinal que merece atenção: o Brasil voltou a disputar espaço de forma relevante na alocação internacional.

Parte disso pode ser explicada pelo diferencial de juros. Parte pela busca global por diversificação. Parte pela atratividade relativa dos ativos brasileiros. A questão mais importante, no entanto, é outra: à medida que a equação de risco e retorno mudar, que tipo de oportunidade o capital encontrará aqui?

Porque a queda da Selic pode aumentar gradualmente a disposição para assumir risco. Ela não garante que esse dinheiro será direcionado para inovação — e muito menos que ficará no Brasil. Essa disputa será cada vez mais global.

Capital não tem obrigação de financiar startups brasileiras, centros de pesquisa brasileiros ou projetos de transformação de empresas brasileiras. Ele procura retorno. E procura os lugares onde risco, escala e oportunidade formam a melhor combinação.

Se o Brasil quiser transformar um ciclo monetário mais favorável em um ciclo consistente de inovação, precisará construir razões para que esse capital encontre aqui oportunidades melhores do que em outros mercados. E temos ativos importantes para fazer isso.

O Brasil combina escala de mercado, um sistema financeiro sofisticado, alta digitalização em diferentes segmentos e setores nos quais problemas locais ajudaram a produzir soluções extremamente competitivas. Fintech, agronegócio, energia, serviços financeiros e diferentes áreas da economia digital mostram que complexidade também pode ser matéria-prima para inovação.

Temos ainda uma geração de empreendedores que aprendeu a construir empresas em um ambiente pouco previsível. Startups brasileiras cresceram convivendo com volatilidade econômica, restrições de funding e um mercado de capital de risco muito menor do que aqueles encontrados nos principais hubs globais de tecnologia.

Por isso, talvez nosso principal problema nunca tenha sido falta de capacidade para inovar. O problema é transformar inovação em escala. E escala exige mais do que uma boa ideia. Exige capital, tempo, talento, mercado e conexão com quem tem capacidade de distribuir e implementar tecnologia.

É justamente por isso que a redução da Selic deve ser vista como uma oportunidade, e não como uma solução.

Juros menores ajudam. Reduzem o custo de oportunidade e podem melhorar a relação entre risco e retorno. Mas não substituem segurança jurídica, previsibilidade regulatória, investimento em pesquisa, formação de talentos ou um mercado de venture capital mais profundo.

Também não substituem uma peça que considero essencial: a conexão entre startups e grandes empresas.

No fim, inovação só gera impacto econômico relevante quando tecnologia encontra mercado. E as grandes corporações continuam tendo um papel fundamental nessa equação, seja como clientes, investidores, parceiros ou canais de escala para soluções desenvolvidas por empresas mais jovens.

Um país pode ter liquidez e continuar sem produzir inovação relevante. Pode criar milhares de startups sem transformá-las em empresas globais. Pode desenvolver tecnologia sem conseguir capturar o valor econômico gerado por ela. O verdadeiro desafio é conectar essas peças.

Existe ainda um segundo efeito que tende a ganhar importância à medida que o capital voltar a procurar crescimento: a competição também aumenta.

Startups brasileiras não disputam apenas capital brasileiro. Fundos brasileiros não competem apenas entre si. Ecossistemas inteiros concorrem globalmente para atrair investidores, empreendedores, pesquisadores e empresas. Isso coloca a discussão em outro patamar.

Não se trata simplesmente de criar mais startups ou aumentar o volume investido em venture capital. Trata-se de construir empresas capazes de competir por capital global, grandes corporações capazes de absorver tecnologia com mais velocidade e um ambiente econômico que permita transformar inovação em produtividade e escala internacional.

A queda dos juros pode fazer o capital voltar a procurar risco. Mas não existe nenhuma garantia de que esse capital encontrará inovação no Brasil. Essa parte depende de nós.

A Selic pode abrir uma janela. Transformar essa janela em um novo ciclo de tecnologia, produtividade e empresas brasileiras capazes de competir globalmente é uma escolha estratégica. E, quando o capital começar a se mover com mais força, a vantagem não estará simplesmente com quem precisar dele. Estará com quem estiver preparado para recebê-lo.

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