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Tarifaço pode atingir até US$ 11 bilhões em exportações

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Sobretaxa de 25% entra em vigor em 22 de julho e pressiona setores como madeira, calçados, móveis, máquinas, açúcar e etanol; governo prepara reforço ao Plano Brasil Soberano

A entrada em vigor de uma nova tarifa de 25% sobre parte dos produtos brasileiros vendidos aos Estados Unidos coloca empresas exportadoras diante de uma corrida para preservar o caixa, evitar demissões e buscar novos mercados.

A medida passa a valer em 22 de julho e atinge setores como madeira, móveis, calçados, máquinas, equipamentos elétricos, produtos cerâmicos, açúcar e etanol. Produtos importantes da pauta brasileira, como café, carne bovina e determinados componentes aeronáuticos, ficaram fora desta nova rodada de sobretaxas.

Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, a tarifa deve alcançar aproximadamente 18% das exportações brasileiras destinadas aos Estados Unidos, o equivalente a US$ 7,4 bilhões, considerando os embarques realizados em 2024. A Câmara Americana de Comércio para o Brasil, a Amcham, calcula uma exposição potencial ainda maior, de cerca de US$ 11 bilhões em exportações da indústria e do agronegócio.

Diante do impacto, o governo federal anunciou que pretende reforçar o Plano Brasil Soberano, programa criado para apoiar exportadores afetados por tarifas comerciais e outras instabilidades internacionais.

Para o advogado tributarista William Almeida, medidas fiscais e financeiras podem ser decisivas para garantir fôlego às empresas nos próximos meses.

“O governo pode adotar medidas como o adiamento do pagamento de tributos federais, a priorização da restituição de créditos tributários, a facilitação do uso de créditos fiscais e a ampliação de regimes especiais voltados aos exportadores”, explica.

Segundo o especialista, também podem ser oferecidas linhas de crédito com juros reduzidos e garantias públicas, especialmente para preservar o capital de giro das companhias mais dependentes do mercado norte-americano.

Crédito pode impedir demissões no curto prazo

Retomado em 2026 por meio da Medida Provisória nº 1.345, o Plano Brasil Soberano recebeu R$ 15 bilhões em novos recursos federais para linhas administradas pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, o BNDES. O programa atende exportadores, fornecedores e empresas de setores relevantes para o comércio exterior brasileiro.

Até o início de junho, o BNDES havia recebido R$ 6,7 bilhões em pedidos de financiamento e aprovado R$ 1,6 bilhão. As regras foram ampliadas para permitir o acesso de empresas que comprovem impacto igual ou superior a 1% de seu faturamento bruto, conforme os critérios do programa.

Para William Almeida, esse tipo de apoio pode evitar uma deterioração mais rápida da situação financeira das empresas.

“As medidas podem preservar o fluxo de caixa e reduzir o risco de demissões no curto prazo, especialmente entre empresas altamente dependentes do mercado norte-americano”, afirma.

O advogado ressalta, porém, que o adiamento de tributos não elimina a obrigação. Sem uma recuperação das vendas ou a conquista de novos compradores, a empresa poderá enfrentar dificuldades quando os pagamentos voltarem a vencer.

“Os incentivos tributários, sozinhos, tendem a funcionar apenas como um alívio temporário caso as tarifas permaneçam por um longo período”, alerta.

Dependência dos Estados Unidos aumenta o risco

A preocupação é maior entre empresas que direcionam uma parcela significativa da produção aos Estados Unidos e possuem contratos, linhas de montagem e estruturas logísticas organizadas para atender o mercado americano.

Com a tarifa, o produto brasileiro pode chegar mais caro ao importador, perder competitividade diante de fornecedores de outros países ou enfrentar pedidos de renegociação. Em alguns casos, o comprador americano pode cancelar contratos ou pressionar a empresa brasileira a absorver parte do custo adicional.

William defende que a resposta não deve ficar restrita à área tributária.

“Para um resultado mais duradouro, seria importante combinar o apoio fiscal com crédito de longo prazo, incentivo à abertura de novos mercados, programas de inovação e medidas voltadas ao aumento da competitividade da indústria”, explica.

A diversificação de destinos também é considerada fundamental para reduzir a vulnerabilidade das empresas a decisões comerciais tomadas por um único país.

“É necessário criar condições para que as empresas encontrem novos mercados e não dependam apenas dos Estados Unidos”, acrescenta o tributarista.

Estudo divulgado pelo BNDES sobre as tarifas adotadas desde 2025 mostrou que o redirecionamento das exportações para outros mercados ajudou a reduzir parte dos efeitos negativos sobre a balança comercial brasileira. Apesar de o impacto agregado ter sido limitado, determinados setores e empresas continuaram mais expostos.

Quem deve ter direito ao apoio

Um dos desafios do governo será definir quais empresas realmente foram prejudicadas e devem ter acesso às medidas emergenciais.

Para William Almeida, o apoio precisa ser direcionado a companhias capazes de demonstrar uma relação concreta entre as tarifas e a perda de receitas.

“Entre os principais critérios podem estar a participação das exportações para os Estados Unidos no faturamento, a queda nas vendas externas, o cancelamento de contratos, a redução da produção e o risco de demissões”, afirma.

A comprovação poderá envolver declarações de exportação, notas fiscais, demonstrativos contábeis, contratos cancelados e documentos que indiquem a redução dos pedidos ou do volume produzido.

As linhas do Brasil Soberano já utilizam informações oficiais de faturamento e exportação fornecidas pela Receita Federal, além de autodeclarações e listas de produtos alcançados pelas tarifas comerciais.

Segundo o tributarista, critérios objetivos são necessários tanto para acelerar o atendimento às empresas mais vulneráveis quanto para impedir o acesso de negócios que não sofreram prejuízo efetivo.

Alívio precisa chegar antes da perda de contratos

Para as empresas, o tempo será um fator decisivo. O crédito e as medidas tributárias precisam ser disponibilizados antes que a falta de caixa provoque cortes na produção, atrasos com fornecedores ou demissões.

Na avaliação de William Almeida, o pacote terá maior efetividade se unir resposta emergencial e planejamento de longo prazo.

“O apoio precisa preservar o caixa agora, mas também preparar as empresas para competir em outros mercados. Caso contrário, o governo apenas adiará um problema que poderá reaparecer quando os tributos voltarem a vencer e as linhas de crédito precisarem ser pagas”, conclui.

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