Negócios

Velocidade sem rumo: o perigo de automatizar processos sem alinhamento estratégico 

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Por Pedro Signorelli

Estruturas rígidas de planejamento pensadas para horizontes anuais extensos perderam o sentido em mercados marcados pela volatilidade. O avanço acelerado da inteligência artificial e as mudanças rápidas no comportamento dos clientes exigem respostas cada vez mais ágeis das organizações. O grande dilema atual é que muitas empresas investem pesado em tecnologias de ponta, mas continuam presas a dinâmicas internas ultrapassadas, ganhando velocidade operacional sem evoluir no direcionamento do seu Planejamento estratégico.

Esse panorama expõe um contraste marcante na gestão moderna: a profusão de ferramentas digitais e automações contrasta com a dificuldade recorrente de transformar agilidade operacional em impacto real nos negócios. A questão central não é produzir em maior quantidade, mas atuar com precisão. Levantamentos globais da consultoria McKinsey mostram que cerca de 88% das organizações já utilizam inteligência artificial em suas rotinas diárias, contudo apenas 6% conseguem mensurar avanços expressivos e impacto direto nos resultados operacionais da empresa. O grande diferencial entre o ganho individual e o impacto corporativo é a capacidade de governança para filtrar o excesso de informações e definir prioridades.

Sem foco, o aparato tecnológico acaba virando fonte de sobrecarga. Mensagens em excesso e reuniões virtuais constantes fragmentam a rotina de trabalho, fazendo com que líderes e equipes percebam o ambiente de trabalho como caótico e exaustivo. Sob o peso do imediatismo, muitas corporações confundem volume de tarefas executadas com progresso verdadeiro, sacrificando metas estratégicas para atender a urgências passageiras.

Diante dessa dispersão, a principal função da governança atual é separar o que é emergência momentânea do que é objetivo relevante. A adoção do modelo de Gestão por resultados surge como caminho para superar esse desafio ao conectar os grandes objetivos corporativos a indicadores claros de acompanhamento. Essa visão de Gestão de metas exige questionar de forma rigorosa quais impactos são esperados, como o avanço será medido, qual é o valor real das iniciativas e, principalmente, quais projetos devem ser cancelados. Saber dizer não a demandas secundárias virou uma competência essencial diante do mar de possibilidades trazido pela tecnologia.

Estudos complementares da consultoria Gartner reforçam esse cenário ao revelar que apenas 22% das corporações conseguem escalar iniciativas de tecnologia e inteligência artificial com retorno positivo amplo, justamente porque a maior parte das empresas falha em alinhar as novas ferramentas aos objetivos do negócio. As análises indicam que o alinhamento das equipes e a escolha criteriosa de projetos geram um impacto muito maior na conquista de metas do que a simples automação de rotinas isoladas. As empresas que alcançam Alta performance não são as que acumulam mais softwares, mas as que revisam seus fluxos com rigor, acompanham resultados concretos e mantêm disciplina para transformar inovação em valor real.

Essa mudança redefine o papel das lideranças. O gestor deixa de ser um mero cobrador de tarefas para se tornar um direcionador de foco. Estruturas engessadas deram lugar a modelos flexíveis, capazes de manter o rumo por meio do acompanhamento constante e da sintonia entre a estratégia e a execução prática.

A inteligência artificial torna ainda mais evidente a necessidade de saber escolher. As empresas que vão liderar seus mercados nos próximos anos não serão as que executarem mais tarefas, mas as que souberem definir exatamente quais metas importam, direcionando esforços para elas e eliminando distrações. Em tempos de transformações aceleradas, ter clareza de rumo vale muito mais do que andar rápido sem saber para onde ir.

Pedro Signorelli é um dos maiores especialistas do Brasil em gestão, com ênfase em OKRs. Já movimentou com seus projetos mais de R$ 2 bi e é responsável, dentre outros, pelo case da Nextel, maior e mais rápida implementação da ferramenta nas Américas.

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