Especialistas alertam para esgotamento do Judiciário e defendem uso de dados, IA e integração entre áreas como estratégia preventiva
Com a judicialização em níveis historicamente elevados no Brasil, empresas de grande porte já acumulam centenas de milhares de processos ativos, segundo dados da DeltaAI, legaltech especializada em Inteligência Artificial para gestão de contencioso. No setor financeiro, esse mesmo levantamento indica que instituições chegam a somar mais de 600 mil ações simultâneas, cenário que pressiona o Judiciário e leva companhias a adotarem estratégias preventivas para conter uma nova onda de litígios prevista para 2026.
Nesse contexto, legaltechs como a DeltaAI, empresa de tecnologia especializada em soluções de Inteligência Artificial para gestão de contencioso e prevenção de litígios, vêm ganhando espaço ao transformar grandes volumes de dados jurídicos e de atendimento em inteligência estratégica. Segundo Patrícia Carvalho, cofundadora e CEO da DeltaAI, o movimento reflete uma mudança de mentalidade nas empresas: “Durante muitos anos, o contencioso foi tratado apenas como consequência. Hoje, cada vez mais organizações entendem que dados jurídicos e de atendimento podem ser usados de forma preditiva para evitar que o conflito chegue ao Judiciário”.
Diante desse cenário, a DeltaAI separou cinco formas de empresas reduzirem litígios antes da enxurrada de ações em 2026:
1. Análise preventiva baseada em dados históricos
Levantamentos da legaltech indicam que, em novembro de 2025, instituições financeiras, como o Santander, acumulavam mais de 254 mil processos ativos, e o Banco do Brasil, ultrapassa 650 mil ações. Esse cenário de litigiosidade elevada revela não apenas a sobrecarga do sistema de Justiça, mas também um ativo valioso de dados que pode ser explorado de forma preventiva.
A partir da análise de processos históricos da empresa e de perfis de clientes litigantes, a tecnologia permite a criação de modelos de machine learning capazes de identificar padrões de risco. Com a integração de dados dos canais de atendimento, como tipo de reclamação, nível de resolução e sentimetria do consumidor, a IA gera um score de propensão à judicialização, possibilitando que a empresa antecipe o conflito e resolva o problema antes que ele se transforme em processo.
2. Integração entre jurídico e atendimento ao consumidor
Outro ponto central para a redução de litígios é o alinhamento entre os times jurídico e de atendimento. Segundo o advogado Vinicius Sala, profissional com formação pela American University, FGV, Harvard Law School e mestrado pela London School of Economics, a atuação conjunta dessas áreas permite transformar reclamações recorrentes em insumos estratégicos. De acordo com Sala, a análise periódica do contencioso ajuda a identificar padrões regionais ou operacionais que impulsionam ações judiciais.
Para ele, quando jurídico e atendimento compartilham informações, torna-se possível investigar causas como falhas na prestação de serviços ou indisponibilidade de produtos e agir preventivamente, reduzindo novos conflitos e fortalecendo a posição da empresa em eventuais disputas. “Esse alinhamento também contribui para um reposicionamento do departamento jurídico dentro da organização. Ao deixar de atuar apenas de forma reativa, respondendo a demandas já instauradas, o jurídico passa a integrar a estratégia do negócio, dialogando com outras áreas, antecipando riscos e apoiando decisões. Com isso, ganha visibilidade, relevância e passa a ser reconhecido como um parceiro ativo na gestão e na sustentabilidade da empresa”, explica.
3. Monitoramento ativo do Consumidor.gov e Reclame Aqui
Plataformas públicas e privadas de reclamação se consolidaram como termômetros relevantes do risco jurídico. Dados de 2023 mostram que o Reclame Aqui recebe, em média, 45 mil reclamações por dia. Já no Consumidor.gov, os registros de queixas contra prestadores de serviço somaram 607.343 entre janeiro e abril de 2025, um crescimento de 33,7% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Para Carvalho, acompanhar esses canais vai além da gestão de reputação. As reclamações funcionam como indicadores antecipados de insatisfação que, quando ignorados, tendem a evoluir para processos judiciais. “Empresas que utilizam esses dados de forma estruturada conseguem agir mais rápido, corrigir falhas operacionais e reduzir a escalada do conflito”, explica.
4. Mapeamento de juízes e comarcas com maior índice de condenação
A análise preditiva também pode ser aplicada diretamente ao Judiciário. Por meio da extração e classificação de dados não estruturados de sentenças, é possível identificar padrões decisórios de magistrados e comarcas, atribuindo scores de probabilidade de condenação para diferentes tipos de ações.
Com esse tipo de inteligência, empresas passam a ter subsídios para avaliar o risco financeiro de um processo específico. “Ao identificar magistrados que costumam fixar indenizações mais elevadas em casos de cobrança indevida, a companhia pode optar por uma negociação antecipada com o consumidor, reduzindo não apenas o valor da condenação, mas também custos processuais e tempo de exposição ao litígio”, explica Carvalho.
5. Trilhas de recuperação de confiança após reclamações
Além da prevenção jurídica, a experiência do consumidor tem papel direto na redução de processos. Pesquisa da Hibou aponta que 44,8% dos consumidores brasileiros reclamam diretamente para a empresa após uma experiência negativa, enquanto 19,4% recorrem às redes sociais e 30,1% utilizam outros canais corporativos. Ainda assim, muitos conflitos seguem invisíveis para as marcas.
Estudo realizado pela Ipsos e apresentado no CONAREC indica que 25% dos incidentes na jornada do cliente não chegam ao conhecimento da empresa, seja por cansaço do consumidor ou descrença na resolução. Para Patrícia Carvalho, investir em recuperação de confiança é tão estratégico quanto investir em tecnologia: “Quando a empresa resolve de forma efetiva e acompanha o cliente após a reclamação, ela não só preserva a reputação e a receita, como também reduz drasticamente a chance de aquele problema se transformar em um processo judicial”.








