Tecnologia

As empresas investem em tecnologia. Então por que a operação continua falhando?

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O comércio eletrônico segue crescendo no Brasil, mas empresas descobrem que integração de sistemas, sozinha, não elimina gargalos operacionais nem garante eficiência

O comércio eletrônico brasileiro movimentou R$100,5 bilhões apenas no primeiro semestre de 2025, segundo levantamento da Associação Brasileira de Comércio Eletrônico (ABComm). O avanço do setor impulsionou investimentos em ERPs, plataformas de gestão, automação e integração de sistemas. Ainda assim, muitas empresas continuam enfrentando atrasos, retrabalho, aumento de custos e dificuldades para escalar operações de forma sustentável.

O fenômeno tem levado gestores a uma conclusão que começa a ganhar espaço no ambiente corporativo: digitalizar processos não significa, necessariamente, construir uma operação eficiente. Para muitas empresas, a tecnologia resolveu parte dos desafios, mas expôs problemas estruturais relacionados à gestão, aos processos e à capacidade operacional.

Para Wagner Righetti, especialista em tecnologia aplicada à logística, transporte e automação operacional, com mais de 20 anos de experiência no setor e fundador da Orange Envios, empresa especializada em gestão logística e inteligência de fretes para operações de comércio eletrônico, a transformação digital entrou em uma nova fase de maturidade. “Durante muito tempo, o foco das empresas foi digitalizar processos e integrar sistemas. Isso era necessário. Mas muitas organizações descobriram que a integração, sozinha, não resolve problemas relacionados à complexidade operacional. Ela é apenas o ponto de partida”, afirma.

A mudança acontece em um momento de amadurecimento do próprio comércio eletrônico. Dados da Neotrust mostram que o faturamento do setor alcançou R$ 282,6 bilhões nos três primeiros trimestres de 2025, crescimento de 18% em relação ao mesmo período do ano anterior. O avanço trouxe mais vendas, mas também elevou o grau de complexidade das operações.

À medida que aumentam os pedidos, os canais de venda, as regiões atendidas e as exigências dos consumidores, estruturas que funcionavam adequadamente em fases iniciais passam a apresentar limitações. Processos manuais, regras genéricas e fluxos pouco flexíveis começam a gerar impactos sobre produtividade, custos e experiência do cliente.

Segundo Righetti, um dos erros mais comuns observados em operações de médio porte é acreditar que a simples conexão entre ERP, loja virtual e transportadoras será suficiente para sustentar o crescimento.

“Duas empresas podem utilizar exatamente os mesmos sistemas e apresentar resultados completamente diferentes. A diferença normalmente não está na tecnologia, mas na forma como a operação foi estruturada, nas regras aplicadas e na capacidade de adaptação aos desafios do negócio”, explica.

A logística é uma das áreas onde essa realidade se torna mais evidente. Embora a integração entre plataformas tenha se tornado praticamente obrigatória, ela deixou de representar vantagem competitiva. O diferencial passou a estar na inteligência operacional aplicada ao processo.

Empresas que trabalham com diferentes perfis de produtos, regiões de entrega e necessidades comerciais passaram a exigir regras específicas de frete, critérios distintos de transportadoras, gestão por perfil de carga e maior capacidade de personalização operacional.

“Conectar sistemas ficou relativamente simples. O desafio atual é fazer com que a operação responda às particularidades de cada negócio. É nesse ponto que muitas empresas encontram dificuldades, porque a complexidade cresce mais rápido do que a estrutura operacional”, afirma.

O impacto vai além da área de tecnologia. Quando os processos deixam de acompanhar o ritmo da expansão, problemas operacionais começam a afetar indicadores financeiros, capacidade de crescimento e satisfação dos clientes. Atrasos, falhas de comunicação, reentregas, aumento de chamados de suporte e custos adicionais tornam-se sintomas de uma operação que não evoluiu na mesma velocidade das vendas.

Outro fator que contribui para esse cenário é a pressão crescente por eficiência. Com margens mais apertadas e consumidores mais exigentes, empresas passaram a buscar produtividade sem necessariamente aumentar equipes ou ampliar custos na mesma proporção.

Nesse contexto, especialistas apontam que a próxima etapa da transformação digital será menos focada em integração tecnológica e mais concentrada em inteligência operacional, automação de decisões e personalização de processos.

A própria Black Friday de 2025 reforçou essa tendência. Segundo dados do setor, o comércio eletrônico brasileiro movimentou R$4,76 bilhões durante o período, crescimento de 11,2% em relação ao ano anterior. O resultado mostrou que a capacidade de absorver volumes elevados de pedidos sem comprometer a experiência do consumidor se tornou um diferencial competitivo relevante.

Para Righetti, as empresas que conseguirão sustentar crescimento nos próximos anos serão aquelas capazes de transformar tecnologia em eficiência operacional real.

“Existe uma diferença importante entre estar digitalizado e estar preparado para crescer. A tecnologia é fundamental, mas ela precisa estar acompanhada por processos inteligentes, capacidade de adaptação e uma estrutura preparada para lidar com a complexidade da operação. É isso que vai separar as empresas que conseguem escalar daquelas que passam a enfrentar dificuldades justamente quando começam a crescer”, conclui.

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