Negócios

A armadilha da iliquidez no ciclo de vida das empresas brasileiras

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**Por Israel Dal Ri

Em meus 14 anos de carreira dedicada ao mercado financeiro, presenciei incontáveis histórias de empreendedores com excelentes produtos e modelos de negócios promissores que, no entanto, sucumbiram antes mesmo de consolidar sua operação. A causa primária desse colapso raramente é a ausência de clientes ou a falta de demanda, na verdade o grande vilão é, quase sempre, a sufocante iliquidez dos primeiros anos.

Números oficiais do IBGE e do Sebrae apenas traduzem em estatística o que vivenciamos na prática bancária: cerca de 60% das empresas brasileiras fecham as portas antes de completar cinco anos de atividade, e até 29% não chegam sequer ao final do primeiro ano. 

Ou seja, na raiz desse diagnóstico está uma gestão financeira incapaz de suportar o descompasso natural entre o prazo das contas a pagar e o tempo de recebimento das vendas.

Por exemplo, nos meses iniciais de uma operação, a pressão sobre o caixa é implacável. Custos fixos como folha de pagamento, aluguel, infraestrutura e fornecedores exigem desembolso imediato em dinheiro. 

Por outro lado, para competir e conquistar mercado, o empreendedor é forçado a oferecer parcelamentos e prazos dilatados aos seus clientes. O resultado dessa equação é um hiato perigoso: a empresa vende, fatura e cresce, mas fica sem recursos em conta para honrar os compromissos primários do mês.

Não é à toa que a antecipação de recebíveis deixa de ser uma simples operação e se transforma em uma ferramenta de sobrevivência e governança financeira. Ao transformar vendas a prazo em saldo disponível de forma imediata, o empresário injeta oxigênio na operação sem recorrer ao endividamento bancário tradicional.

Quer dizer então que somente com a antecipação de recebíveis salvo minha operação? A matemática, embora seja uma ciência exata, não é tão simples nestes casos. Claro que entender a distinção entre o crédito tradicional e o desconto de recebíveis é fundamental, especialmente para negócios em fase de consolidação. 

De forma simples e prática, para obter empréstimos via crédito bancário tradicional, é exigido do empreendedor histórico financeiro, demonstrações de faturamento de longo prazo e a entrega de garantias reais de alto valor, exigências inalcançáveis para a maioria das empresas jovens. 

Já na antecipação de recebíveis, a garantia do recurso é o próprio direito de crédito gerado por uma venda efetivamente realizada. O risco é mitigado pela qualidade da transação comercial, simplificando o processo de análise e aprovação pelas instituições especializadas.

A peça-chave de todo negócio é manter o fluxo de caixa equilibrado, especialmente na fase inicial, uma vez que um acompanhamento rigoroso das entradas e saídas, combinado a estratégias eficientes de conversão de ativos em liquidez, é o que distingue os negócios que sucumbem à volatilidade inicial daqueles que constroem uma trajetória sólida e sustentável no mercado.

**Israel Dal Ri é Gerente de Controladoria do Banco Topázio. Com mais de uma década de experiência no mercado financeiro, é formado em Contabilidade pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, possui especialização em Finanças e MBA em Tecnologia de Negócios.

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