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A experiência de recarga como o próximo grande diferencial da eletromobilidade

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*Por Thiago Moreno

A eletromobilidade finalmente entrou em uma nova fase no Brasil e ela não é mais sobre o futuro, mas sobre escala. Em 2025, o país ultrapassou a marca de 223 mil veículos eletrificados vendidos, com um crescimento de 26% em relação ao ano anterior, um ritmo dez vezes superior ao do mercado automotivo como um todo. 

Mais do que isso, já conseguimos ver esses veículos representando uma fatia relevante das vendas totais. Só em dezembro do ano passado, por exemplo, foram 33.905 eletrificados leves emplacados, 60% a mais que em novembro (21.209) e 57% acima de dezembro de 2024 (21.634). No mesmo mês, esses modelos responderam por 13% de todos os veículos leves vendidos no país, o melhor resultado da série histórica registrado pela Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE).  

Mas todo crescimento rápido expõe gargalos e, no caso da eletromobilidade, o principal deles deixou de ser a adoção do veículo e passou a ser a experiência de recarga. Com isso, começou a ficar evidente que o problema da recarga não é apenas físico, mas, cada vez mais, digital. 

A infraestrutura evoluiu de forma consistente. Hoje, o Brasil já conta com quase 17 mil pontos de recarga públicos e semi-públicos, um crescimento de cerca de 59% em pouco mais de um ano. Contudo, ainda assim, a relação entre veículos e carregadores — aproximadamente um ponto para cada 18 carros — revela que simplesmente expandir a rede não será suficiente para sustentar o próximo ciclo de crescimento. 

Por muito tempo, prevaleceu a lógica dos combustíveis fósseis: se há um ponto disponível, o problema está resolvido. Porém, na prática, a eletromobilidade exige outra dinâmica, pois o usuário não quer apenas abastecer, ele quer planejar, antecipar, otimizar tempo e custo e, sobretudo, ter controle sobre cada etapa da recarga. 

É aqui que surge uma mudança silenciosa, mas profunda, onde a recarga deixa de ser um momento isolado e passa a ser uma jornada conectada. 

Iniciativas recentes no mercado mostram que estamos caminhando para um modelo em que aplicativos e plataformas digitais assumem o papel de interface central dessa experiência. Soluções que permitem localizar carregadores em tempo real, iniciar sessões remotamente, acompanhar consumo, prever custos e integrar pagamentos de forma transparente são um diferencial competitivo para empresas de mobilidade. Mais do que conveniência, isso é eficiência sistêmica. 

Quando a experiência é bem desenhada, o impacto vai além do usuário. A taxa de utilização dos carregadores aumenta, filas diminuem, o tempo ocioso é reduzido e a previsibilidade da rede melhora. Em outras palavras, tecnologia não apenas facilita a vida de quem recarrega, ela melhora a rentabilidade de quem opera. 

O ponto crucial disso é que não existe mais separação entre experiência do usuário e resultado do negócio. Uma depende diretamente da outra. Ao mesmo tempo, à medida que o mercado amadurece, novas camadas de complexidade surgem. Frotas corporativas já demandam soluções específicas, com gestão centralizada, controle de custos e inteligência operacional. Motoristas individuais, por outro lado, esperam personalização, recomendações e uma experiência cada vez mais fluida. Atender esses diferentes perfis exige algo que vai muito além da infraestrutura: exige inteligência. 

O futuro da recarga passa por entender padrões de uso, antecipar demanda, integrar diferentes redes e criar uma experiência contínua, independentemente de onde o usuário esteja. Interoperabilidade deixa de ser um conceito técnico e passa a ser um requisito básico para escalar o setor. 

O que estamos vendo, portanto, é uma mudança de eixo. A infraestrutura continua sendo essencial, mas ela já não é o principal diferencial competitivo. O valor está migrando rapidamente para a camada digital que conecta, organiza e simplifica toda a jornada. Esse movimento é semelhante ao que vimos em outros setores, como quando o hardware se torna mais acessível, o software passa a definir os líderes de mercado, entre outros.  

Na eletromobilidade, isso significa que vencerá quem transformar a recarga em algo simples, previsível e integrada ao cotidiano. Porque, no fim, o sucesso da mobilidade elétrica não será determinado apenas por quantos carregadores existem, mas por quão fácil é usá-los. E essa resposta está sendo construída agora, por iniciativas que entendem que experiência não é um detalhe do produto, é o próprio produto. 

*Thiago Moreno é CEO da Spott.

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