Tecnologia

Avanço da IA muda perfil profissional e aumenta pressão por regras nas empresas

5 Mins read

Estudo do Top Employers mostra que 32% das empresas certificadas Top Employers no Brasil já testam práticas de IA responsável e aponta governança e supervisão humana como desafios da nova fase

A corrida pela inteligência artificial entrou em uma nova etapa. Depois de conquistar espaço como ferramenta para produzir textos, analisar dados e automatizar tarefas, a tecnologia avança para sistemas capazes de coordenar processos, tomar decisões e executar etapas inteiras do trabalho com menor intervenção humana. A mudança, que reacendeu entre as próprias empresas de tecnologia o debate sobre segurança, controle e supervisão, começa a produzir uma segunda discussão dentro das companhias: quais decisões podem ser delegadas à IA e quais precisam continuar necessariamente sob responsabilidade de pessoas?

No Brasil, esse movimento encontra um mercado que experimenta a tecnologia em ritmo acelerado. Dados do Top Employers Institute, em recorte brasileiro da HR Best Practices Survey 2026, mostram que 32% das empresas certificadas analisadas no país estão em fase piloto de práticas de inteligência artificial responsável, ante 23% globalmente. O recorte brasileiro também revela uma atenção particularmente ligada à produtividade: 39% das organizações destacam o potencial da IA para ampliar a capacidade da força de trabalho, frente a 27% no cenário global.

Os números complementam o estudo Designing work for the age of agentic AI, divulgado neste ano pelo instituto. O levantamento reúne dados e insights de 2.358 organizações participantes da HR Best Practices Survey 2026, pesquisa que embasa a certificação Top Employers em diferentes países, e analisa uma mudança que vai além da adoção de novas ferramentas: a passagem para a chamada IA agêntica, formada por sistemas capazes de executar objetivos com supervisão humana limitada e, em alguns casos, coordenar diferentes agentes para cumprir tarefas complexas.

Para Raphael Henrique, gerente regional para a América Latina do Top Employers Institute, o momento brasileiro combina disposição para experimentar com a necessidade de transformar essa experiência em processos mais maduros. “O Brasil mostra uma abertura importante para experimentar a inteligência artificial e enxergá-la como instrumento de produtividade. O próximo passo é garantir que esse avanço seja acompanhado por critérios claros sobre onde a tecnologia pode atuar, onde a decisão humana precisa prevalecer e quem responde pelos resultados. Quanto mais capacidade damos à IA, mais importante se torna definir a responsabilidade das pessoas que estão por trás dela”, afirma.

Essa mudança também começa a alterar as competências procuradas pelas empresas. Segundo o estudo, à medida que sistemas inteligentes assumem parte da execução, o trabalho humano tende a migrar da realização direta de determinadas tarefas para atividades como definir objetivos, supervisionar resultados, identificar exceções, validar decisões e coordenar sistemas. O relatório aponta que o valor profissional passa a estar menos associado apenas ao volume de tarefas realizadas e mais à capacidade de julgamento e de articulação entre diferentes processos.

O movimento deu origem ao conceito de “orquestrador de IA”, utilizado pelo estudo para descrever o profissional generalista capaz de usar inteligência artificial para produzir resultados que anteriormente poderiam depender da participação de uma pequena equipe. Nesse cenário, saber utilizar a tecnologia é apenas uma parte da competência. A capacidade de direcioná-la, questionar seus resultados e assumir decisões torna-se igualmente relevante. “A competência que ganha valor não é simplesmente saber pedir algo para uma inteligência artificial. As empresas começam a precisar de profissionais capazes de entender o contexto, formular problemas, avaliar respostas e saber quando a decisão não deve ser delegada à tecnologia. Isso também muda recrutamento, desenvolvimento de pessoas e formação das lideranças”, diz Henrique.

A pressão sobre o RH aparece também no planejamento das competências necessárias para os próximos anos. Entre as organizações certificadas analisadas pelo Top Employers Institute em 2026, 61% possuem processo formal de planejamento estratégico da força de trabalho para identificar necessidades futuras de pessoas e competências, mas somente 41% trabalham com múltiplos cenários futuros.

Para o Top Employers Institute, essa diferença ganha relevância porque a IA torna menos previsível a configuração futura das funções. Sistemas agênticos podem coordenar atividades relacionadas a contratação, integração e treinamento, atendimento a clientes e gestão de cadeias de suprimentos. Ao mesmo tempo, a tecnologia desloca parte da contribuição humana para funções de orientação, validação e configuração desses sistemas.

Empresas aceleram regras para uso da IA

A maior autonomia tecnológica ajuda também a explicar por que a governança avançou rapidamente dentro das organizações. Entre os Top Employers, a proporção de empresas com estruturas formais de IA ética passou de 42% em 2025 para 62% em 2026. No mesmo intervalo, a adoção de práticas responsáveis de implementação da tecnologia avançou de 48% para 68%.

Os resultados associados a essas estruturas ajudam a ampliar a discussão para além de compliance. Entre as organizações que possuem um framework ético formal, 51% avaliam os impactos da colaboração entre pessoas e IA, contra 23% entre aquelas sem essa estrutura. O envolvimento dos funcionários em discussões sobre ética da IA aplicada ao RH chega a 46% contra 25%, enquanto iniciativas relacionadas à preparação e à resiliência diante das mudanças aparecem em 76% contra 59%.

“Governança não deve entrar depois que a tecnologia já está disseminada pela empresa. Ela precisa acompanhar a adoção desde o início. Uma política consistente estabelece limites, responsabilidades e mecanismos de supervisão, mas também dá segurança para que as pessoas experimentem e inovem. É justamente essa combinação entre liberdade para avançar e clareza sobre os limites que tende a diferenciar as organizações mais maduras”, afirma Henrique.

Na prática, o estudo recomenda que as empresas definam onde a participação humana deve permanecer obrigatória, estabeleçam mecanismos de avaliação dos impactos da IA tanto sobre os resultados do negócio quanto sobre a experiência dos funcionários e mantenham diálogo permanente com as equipes. O relatório também destaca a necessidade de atualizar funções, estruturas de remuneração e recompensa, critérios de desempenho, treinamento e planejamento da força de trabalho conforme pessoas e sistemas inteligentes passam a dividir a execução das atividades.

Para Henrique, essa transformação coloca uma nova responsabilidade sobre as lideranças. “O profissional não precisa competir com a inteligência artificial em velocidade de processamento. O diferencial humano estará cada vez mais no julgamento, no contexto, na responsabilidade e na capacidade de decidir como a tecnologia deve ser utilizada. Para as empresas, o desafio deixa de ser apenas oferecer acesso à IA e passa a ser preparar pessoas para trabalhar com ela de forma produtiva, crítica e responsável.”

A discussão ganha força justamente quando as próprias big techs ampliam o debate sobre os limites da autonomia dos sistemas de inteligência artificial, com atenção crescente a mecanismos de controle, avaliação e supervisão humana. O movimento reforça uma das conclusões centrais do estudo do Top Employers Institute, que aponta que na próxima etapa da IA, o diferencial das organizações pode estar menos em simplesmente adotar a tecnologia e mais em definir como pessoas e sistemas inteligentes deverão trabalhar juntos, quais decisões podem ser automatizadas e onde a responsabilidade humana precisa permanecer.

Related posts
Tecnologia

Ransomware acelera pela exposição das vítimas, não pela inteligência artificial

4 Mins read
Por Eduardo Martins, Diretor de Serviços e Soluções da Solo Network A reunião de crise que se segue a um ataque de…
Tecnologia

IA ganha funções diferentes na locação de máquinas

5 Mins read
Sisloc amplia projeto iniciado em 2025 e especializa sua assistente virtual ‘Isa’ para atender gestores e vendedores. A tecnologia já consulta indicadores,…
B2BTecnologia

Like Leads cria novos produtos e áreas de atendimento para impulsionar crescimento no setor de tecnologia 

2 Mins read
Agência de comunicação B2B reforça equipe, estrutura área de Customer Success e passa a oferecer serviços de GEO para marcas de tecnologia…