Levantamento do BCG e do Consumer Goods Forum mostra que apenas 34% conseguiram ampliar o uso da tecnologia em decisões comerciais, apesar de seu potencial para reduzir custos e aumentar a rentabilidade
Com a proximidade da Black Friday, período em que descontos, volume de vendas e rentabilidade entram em disputa, a inteligência artificial ganha espaço nas estratégias comerciais do varejo. Um estudo global do Boston Consulting Group (BCG), em parceria com o Consumer Goods Forum (CGF), revela que 46% dos varejistas consideram a combinação entre preços, ofertas e sortimento uma das áreas mais estratégicas para aplicação da tecnologia. Apesar disso, apenas 34% conseguiram implementar essas soluções em larga escala, evidenciando a distância entre o potencial da IA e sua utilização efetiva no setor.
O levantamento, realizado com 39 executivos seniores de empresas de varejo e bens de consumo de diferentes mercados, mostra que 45% dos varejistas já estão ampliando aplicações de inteligência artificial com impacto relevante nos negócios, enquanto 40% ainda se encontram nos estágios iniciais de adoção. Entre as principais oportunidades estão a previsão de demanda, a definição de preços mais competitivos, a gestão de estoques e a otimização do transporte, processos que podem ajudar as empresas a reduzir desperdícios, melhorar a eficiência operacional e preservar a rentabilidade.
Para Guilherme Freire, CEO e cofundador da Dolado, os resultados ganham relevância especialmente em datas como a Black Friday, quando o aumento expressivo no volume de vendas exige decisões rápidas e precisas sobre preços. “Durante muito tempo, a lógica promocional esteve associada principalmente à definição antecipada de uma tabela de descontos. Com mais dados e capacidade analítica, é possível caminhar para uma lógica muito mais dinâmica. Um produto não precisa necessariamente ter 30% de desconto simplesmente porque essa foi a estratégia definida semanas antes. Se a demanda, o estoque ou a resposta do consumidor mostram outro cenário, existe espaço para recalibrar essa decisão e proteger rentabilidade”, explica Freire.
Essa capacidade também muda a relação entre estoque e preço durante a campanha. Em vez de analisar essas variáveis separadamente, sistemas baseados em IA podem conectar velocidade de venda, disponibilidade, comportamento histórico e projeções de demanda para identificar quando um desconto pode ser ampliado, mantido ou reduzido.
IA ainda esbarra na dificuldade de transformar piloto em resultado
Apesar do potencial econômico, o levantamento indica que o varejo ainda está longe de extrair todo o valor disponível. Mais da metade das empresas pesquisadas sequer mede formalmente o retorno sobre os investimentos realizados em inteligência artificial. Entre as principais dificuldades está transformar resultados obtidos em projetos-piloto em retorno financeiro quando a tecnologia é aplicada em escala.
O estudo também projeta que, conforme aplicações de IA agêntica amadureçam nos próximos dois a três anos, o potencial de geração de valor identificado atualmente pode crescer em até 1,7 vez. Nesse estágio, sistemas passam progressivamente de ferramentas que apenas oferecem recomendações para tecnologias capazes de executar partes dos fluxos de trabalho dentro de parâmetros previamente definidos pelas empresas.
Para Freire, a Black Friday pode funcionar como um teste importante dessa transição no varejo. “A vantagem não estará simplesmente em ter inteligência artificial, mas em conseguir conectá-la às decisões que realmente interferem no resultado do negócio. Na Black Friday isso fica muito evidente, porque preço, estoque e demanda mudam rapidamente. A tecnologia pode ajudar a responder a essas mudanças em uma velocidade muito maior, mas a estratégia continua sendo fundamental: o objetivo não é dar o maior desconto possível, e sim entender qual preço faz sentido para cada produto e para cada momento da campanha”, conclui o executivo.








