Por Artur Larangeira, COO da Global Franchise*
Atualmente, o mercado brasileiro de franquias vive um momento recorrente de abalos de credibilidade, marcado por promessas de sucesso acelerado e histórias de colapso financeiro que se repetem ciclicamente. Um caso recente envolvendo a rede Laser Fast, que ganhou repercussão nacional após denúncias de prejuízos financeiros e frustração de expectativas de franqueados, não é um ponto fora da curva, mas mais um sintoma de um problema estrutural do setor. Sempre que um escândalo vem à tona, a atenção recai sobre práticas empresariais duvidosas e falhas regulatórias. Tudo isso importa, no entanto, há um fator menos confortável que segue sendo ignorado. A busca recorrente por lucro rápido e retornos irreais continua alimentando decisões de investimento frágeis e criando terreno fértil para novos colapsos. Enquanto essa mentalidade persistir, novos casos tendem a surgir.
No centro da discussão, está menos nos episódios isolados e mais na mentalidade de lucro rápido que se consolidou como um problema estrutural do setor. Parte relevante dos investidores passou a enxergar franquias não como negócios operacionais de médio e longo prazo, e sim como ativos financeiros de curtíssimo prazo, dos quais se espera retorno acelerado e risco reduzido, uma lógica incompatível com a dinâmica real do franchising. Quando essa expectativa distorcida se torna dominante, estimula a criação de modelos que vendem atalhos, inflacionam projeções e mascaram riscos operacionais. O ciclo se repete porque a demanda por ganhos imediatos gera oferta de estruturas frágeis; quando essas estruturas colapsam, novas surgem para atender ao mesmo desejo, recicladas sob outra marca, outro discurso e a mesma promessa irreal de prosperidade rápida.
O setor de franquias no Brasil é sólido e cresce de forma consistente quando respeita fundamentos básicos. Segundo a Associação Brasileira de Franchising, o mercado faturou mais de R$ 287 bilhões no acumulado dos últimos 12 meses (2024/2025) e segue com retorno médio do investimento entre 24 e 48 meses, variando conforme o segmento. Esse dado, público e amplamente conhecido, já desmonta grande parte das promessas vendidas em escândalos recentes. Quando um modelo promete retornos muito acima da média do setor em poucos meses, não se trata de inovação, mas de uma distorção matemática evidente para qualquer análise mínima de viabilidade.
Ainda assim, investidores continuam aderindo a projetos sem lastro econômico. A ausência de diligência prévia é um erro recorrente. Uma análise independente, o exame detalhado da Circular de Oferta de Franquia ou a comparação com indicadores setoriais da própria ABF seriam suficientes para revelar inconsistências. O lucro em negócios legítimos é cumulativo, construído com operação eficiente, escala e tempo. Retornos imediatos costumam indicar que o dinheiro do sistema não vem da atividade fim, mas da entrada constante de novos investidores, característica típica de estruturas insustentáveis.
Esse comportamento é reforçado por um fenômeno contemporâneo. A encenação do sucesso nas redes sociais se tornou parte central da estratégia de captação. Ostentação de carros de luxo, festas e viagens internacionais é apresentada como prova de competência empresarial. Na prática, segundo estudos de educação financeira do Banco Mundial, narrativas de enriquecimento rápido ativam vieses cognitivos ligados à aversão à perda e à busca por status, reduzindo a capacidade crítica do investidor. O espetáculo substitui o plano de negócios e a imagem passa a valer mais do que os números.
É evidente que práticas abusivas devem ser punidas e reguladas com rigor, mas a solidez de qualquer mercado também depende da atuação consciente de quem investe. Ambientes econômicos maduros se estruturam a partir do equilíbrio entre empresas que operam com responsabilidade e investidores capazes de avaliar riscos, informações e a viabilidade real das promessas apresentadas. Atribuir toda a responsabilidade a um único polo distorce a dinâmica do mercado e desconsidera o papel ativo das decisões individuais diante de projeções que nem sempre se sustentam na realidade econômica.
Os escândalos no franchising não persistem por falta de informação, mas por excesso de ilusão. Enquanto a promessa de enriquecimento sem esforço parecer mais atraente do que a lógica dos números, o ciclo tende a se repetir. O antídoto não está em fórmulas milagrosas, mas em educação financeira, leitura cuidadosa de dados e maturidade para aceitar que crescimento sustentável é menos glamouroso e muito mais consistente. O mercado não pune quem cresce devagar, mas cobra caro de quem tenta pular etapas.








