Negócios

Como medir o retorno da educação corporativa?

3 Mins read

Por Marco Vonzodas

Em um mercado cada vez mais dinâmico, impulsionado pela tecnologia e por novas formas de trabalho, o desenvolvimento profissional vem se tornando uma prioridade estratégica para as empresas. No entanto, o investimento em educação corporativa ainda carrega um estigma: para muitos executivos, continua sendo enxergado como uma despesa e não como um ativo gerador de receita.  

Para compreender essa percepção, é preciso analisar o mercado sob duas perspectivas. De um lado, empresas de tecnologia e serviços técnicos especializados consideram a capacitação continuada um elemento obrigatório. Nesses setores, a atualização constante é uma questão de sobrevivência, e o próprio mercado se encarrega de perpetuar apenas as organizações que mantêm suas equipes na vanguarda. 

Por outro lado, na retaguarda operacional da maioria das empresas, o cenário muda. Embora organizações mais maduras entendam o valor de uma equipe afiada, a grande maioria dos empresários ainda assume que o colaborador já deve ingressar plenamente capacitado — encarando a competência técnica como mero pré-requisito de currículo. Sob a lógica do “missão dada é missão cumprida”, o gestor não percebe que um profissional defasado emprega um esforço desproporcional para entregar o mesmo resultado. Como a demanda é entregue de um jeito ou de outro, consolida-se a falsa ideia de que capacitar é um desperdício de tempo e recursos. 

Essa visão se perpetua pelas falhas na mensuração das capacitações. Como prova disso, de acordo com a 20ª edição da pesquisa Panorama T&D Brasil 2025/2026 da ABTD, menos de 15% das empresas conseguem comprovar o retorno financeiro real de suas capacitações, ficando presas a métricas superficiais. O erro primordial é medir participação e ignorar transformação, isso é, contabiliza-se o volume de alunos, as horas consumidas ou a satisfação imediata, mas não se responde à pergunta essencial: o negócio melhorou após a capacitação? 

Existe uma desconexão entre treinamentos e objetivos estratégicos. Se a empresa sofre com retrabalho, erros fiscais ou gargalos operacionais, são exatamente essas variáveis que precisam ser monitoradas após o aprendizado. O treinamento deve resolver problemas reais; do contrário, torna-se apenas um evento isolado sem impacto mensurável. Quando superamos métricas superficiais, os verdadeiros indicadores surgem na operação diária. 

No universo de ERP e gestão empresarial, os sinais de absorção do conhecimento são claros: redução na abertura de chamados de suporte, melhora no uso das funcionalidades já disponíveis nos sistemas, diminuição de erros operacionais e fiscais, menor índice de retrabalho, menos tempo gasto em tarefas rotineiras, maior agilidade no fechamento financeiro e contábil, redução no tempo de onboarding e menor dependência de profissionais específicos. 

Existe uma relação direta entre a performance da empresa e o nível de conhecimento técnico das equipes. Além dos números, a alta gestão percebe a eficiência no dia a dia através do ganho de autonomia, do fluxo contínuo dos processos e do uso pleno das ferramentas disponíveis. A empresa passa a operar com mais confiança, e o conhecimento se materializa em velocidade de execução, qualidade e capacidade adaptativa. 

Para conectar teoria e execução ágil, é indispensável contar com uma estrutura de aprendizado bem desenhada, baseada em treinamentos contínuos, trilhas de aprendizagem e reciclagens periódicas. 

É sob essa premissa que iniciativas de capacitação são desenvolvidas: o objetivo não é apenas ensinar funcionalidades de um software, mas acelerar a maturidade operacional, aumentar a autonomia e transformar o saber em ganho concreto de produtividade. O aprendizado precisa rodar no mesmo ritmo do negócio, sob o risco de a empresa investir em tecnologia sem extrair seu real valor. 

Para a liderança que busca estruturar um plano de medição consistente, o ponto de partida deve ser a definição clara do problema a ser resolvido. A pergunta motivadora precisa ser: “qual comportamento ou resultado operacional queremos melhorar?”. A partir dessa resposta, o indicador surge naturalmente. A educação corporativa não pode ser mensurada como um projeto isolado, mas sim pela transformação direta que produz no negócio. 

Durante muito tempo, as empresas investiram em sistemas para ganhar eficiência. Hoje, o diferencial está em garantir que as pessoas consigam extrair o máximo valor dessas ferramentas. A tecnologia evolui rapidamente, mas o conhecimento continua sendo o elo entre potencial e resultado. Quando a aprendizagem faz parte do fluxo operacional, a empresa reduz riscos, ganha previsibilidade e transforma capacitação em performance. 

Marco Vonzodas é Co-CEO da Okser. 

Related posts
AgriculturaNegócios

Agrotalk Business reúne decisores do agronegócio para debater os impactos da Rota Bioceânica

4 Mins read
Painel com representantes do Brasil, China, Coreia do Sul, Paraguai e Chile discutiu os efeitos do novo corredor logístico sobre exportações, investimentos…
Negócios

O Fed aumentou os juros e a conta também chegou ao Brasil - por Fabio Ongaro, economista italiano e empresário no Brasil, CEO da Energy Group

3 Mins read
O Federal Reserve aumentou hoje a taxa básica dos Estados Unidos em 0,25 ponto percentual, para o intervalo entre 3,75% e 4%…
Negócios

Sua empresa está perdendo clientes ou simplesmente não sabe cobrar?

4 Mins read
Por Daniel Pisano*, Head de Investimentos da 87Labs e CGO da Payloop Quando uma empresa começa a perder clientes, a reação costuma…