Levantamento da Gouvêa Inteligência mostra que o crescimento do mercado tem sido sustentado pelo aumento do ticket médio, que chegou a R$ 20,74 em 2025, enquanto o tráfego caiu 5%, indicando menor frequência dos consumidores aos restaurantes
O foodservice brasileiro encerrou 2025 com faturamento recorde de R$ 223,5 bilhões, consolidando sua relevância para a economia e para a indústria de alimentos no país. Apesar do resultado positivo, o setor entra em 2026 diante de um desafio importante: recuperar o tráfego de consumidores e ampliar as ocasiões de consumo fora do lar.
Os dados fazem parte de um levantamento da Gouvêa Inteligência e foram apresentados com exclusividade por Eduardo Yamashita, CEO da companhia, durante o Connection Foodservice Day, realizado na última terça-feira, 23 de junho. O encontro reuniu executivos, especialistas e lideranças do setor para discutir os principais movimentos da alimentação fora do lar, tendências de consumo, tecnologia, inovação e os aprendizados da National Restaurant Association Show, uma das maiores feiras de foodservice do mundo.
Segundo o estudo, o gasto no foodservice cresceu 1% em 2025 na comparação com 2024, chegando ao maior patamar já registrado. No entanto, esse avanço foi puxado principalmente pelo aumento do ticket médio, que alcançou R$ 20,74, alta de 6% no período. Já o tráfego caiu 5%, totalizando 10,8 bilhões de visitas, o que mostra que o setor segue crescendo em valor, mas ainda enfrenta dificuldade para recuperar o fluxo de consumidores.
Para Yamashita, o dado revela uma mudança importante na dinâmica do mercado. “O foodservice brasileiro segue relevante e resiliente, mas o crescimento não vem, necessariamente, de mais pessoas consumindo com maior frequência. Ele está muito mais associado ao aumento do ticket médio. O grande desafio para 2026 será recuperar o tráfego e fazer com que o consumidor volte a ter mais ocasiões de consumo fora de casa”, avalia Eduardo Yamashita, CEO da Gouvêa Inteligência.
A apresentação também mostrou que a participação do foodservice no gasto das famílias brasileiras ainda tem espaço para crescer. No Brasil, a alimentação fora do lar representava 24% do total gasto com alimentação em 2002, chegou a 33% em 2019 e recuou para 29% em 2025. Nos Estados Unidos, esse percentual atingiu 58% em 2025, o que reforça o potencial de desenvolvimento do mercado brasileiro quando comparado a economias mais maduras.
Além da relevância para o consumidor final, o foodservice também vem ganhando espaço na indústria de alimentos. De acordo com o material apresentado, o canal passou de 26,3% de participação no share de vendas da indústria em 2021 para 28,3% em 2025, sinalizando que o setor se tornou uma frente cada vez mais estratégica para fabricantes, distribuidores e operadores.
Apesar desse potencial, o comportamento do consumidor ainda impõe desafios. O levantamento aponta que a penetração do foodservice voltou a crescer e chegou a 23% no quarto trimestre de 2025, o maior patamar em um ano. Isso significa que mais pessoas consumiram refeições preparadas fora do lar. No entanto, essa recuperação não foi suficiente para compensar a queda na frequência. Em 2025, cresceu a participação dos consumidores que foram a restaurantes apenas uma ou duas vezes por mês, enquanto diminuiu a presença daqueles que frequentavam o foodservice com maior regularidade.
Esse movimento está diretamente relacionado à renda mais pressionada das famílias brasileiras. Com o orçamento mais restrito, o consumidor passou a selecionar melhor quando, onde e quanto gastar fora de casa. As refeições matinais, por exemplo, tiveram queda de 12% no tráfego em 2025, por serem ocasiões mais facilmente substituídas pelo consumo em casa. O estudo também apontou crescimento moderado de 2% no tráfego das segundas-feiras e queda de quase 10% aos sábados, indicando que o consumidor tem reduzido principalmente ocasiões mais flexíveis ou menos essenciais.
Outro ponto destacado pela Gouvêa Inteligência durante o Connection Foodservice Day foi a polarização do mercado. Em 2025, os segmentos premium e os formatos de ticket mais baixo consolidaram força. O tráfego cresceu 19% nos estabelecimentos high ticket, 11% em casual dining, 10% em hotéis e 9% em supermercados e hipermercados com oferta de alimentação pronta. Na prática, o consumidor tem escolhido entre experiências de maior valor agregado, em momentos específicos, e alternativas mais acessíveis e convenientes para o dia a dia.
“O consumidor está mais seletivo. Ele continua valorizando boas experiências, mas também está muito atento à relação custo-benefício. Conveniência, preço adequado e percepção de valor passam a ser determinantes para a escolha”, completa Yamashita.
A consolidação das redes também apareceu como um movimento importante do setor. Embora o foodservice brasileiro ainda seja majoritariamente formado por operadores independentes, as redes vêm ampliando sua participação no tráfego. Em 2019, elas representavam 21% do mercado; em 2025, chegaram a 25%. O avanço é impulsionado por escala, marca, eficiência operacional e maior capacidade de investimento, especialmente em um ambiente de maior complexidade para pequenos negócios.
O levantamento mostra que o Brasil conta com cerca de 1,6 milhão de restaurantes mapeados, sendo mais de 1,5 milhão de estabelecimentos independentes. A maior parte do setor, portanto, ainda é formada por pequenos negócios, muitos deles com menor escala e maior vulnerabilidade. Essa característica ajuda a explicar a alta rotatividade do mercado, que registra, todos os anos, abertura e fechamento de centenas de milhares de restaurantes, com uma taxa estimada entre 20% e 25% de renovação anual da base.
A concentração regional também é expressiva. Três estados representam 45% de todos os restaurantes do país, com forte presença da região Sudeste. São Paulo lidera o ranking, seguido por Minas Gerais e Rio de Janeiro, reforçando a importância dos grandes centros urbanos para o desenvolvimento do foodservice nacional.
Do lado dos operadores, o estudo Foodcheck, também apresentado pela Gouvêa Inteligência, trouxe um retrato do comportamento de compras dos restaurantes. A ferramenta monitora aproximadamente 12% de todas as compras feitas por restaurantes no Brasil, com visibilidade sobre mais de 80 mil pontos de venda, mais de 25 mil locais de compra e mais de 2,5 mil cidades. Na comparação entre março de 2026 e março de 2025, 64% das categorias analisadas apresentaram crescimento em valor, enquanto 36% registraram queda. As principais altas foram observadas em categorias como extrato de tomate, cream cheese, salsicha, fermento e salame. Já as maiores quedas apareceram em azeite, frango, pão de hambúrguer, arroz e mostarda.
Entre as macrocategorias de compra dos restaurantes, proteínas seguem como o principal grupo de gastos, representando 24% do total, seguidas por lácteos, com 16%, bebidas, com 10%, farináceos, com 7%, e gorduras, com 6%. O estudo também mostrou que diferentes categorias têm dinâmicas próprias de crescimento, queda, preço e participação de marcas, o que reforça a necessidade de a indústria acompanhar de perto o comportamento dos operadores e adaptar sua estratégia comercial para o canal.
Para os próximos anos, as classes B e C aparecem como a maior oportunidade de crescimento para o foodservice. A classe A segue mais resiliente, mas com menor potencial de expansão. A classe B continua sendo uma importante base de sustentação do setor, por reunir volume relevante de consumo e presença em diferentes faixas de ticket. Já a classe C, historicamente um motor de crescimento do mercado, ainda sofre com a renda mais comprometida, mas concentra grande potencial de retomada caso haja melhora no poder de compra. A leitura da Gouvêa Inteligência é que o futuro do foodservice brasileiro dependerá da capacidade de atrair novamente o consumidor para mais ocasiões de consumo, combinando conveniência, experiência e boa relação custo-benefício. O setor segue relevante e em crescimento, mas a recuperação do tráfego será decisiva para que esse avanço seja mais sustentável em 2026 e nos próximos anos.








