Em um mercado de aplicativos de relacionamento marcado pela disputa por atenção e pela busca por novas formas de conexão, o Denga Love aposta em uma estratégia que vai além do encontro entre duas pessoas. Criada a partir das experiências da população negra, a plataforma busca unir relacionamento, pertencimento, produção de conteúdo, eventos e geração de conhecimento sobre os padrões afetivos da comunidade negra brasileira.
A proposta parte de uma mudança de perspectiva: a população negra não é tratada apenas como público-alvo, mas como ponto de partida para o desenvolvimento do produto. Isso aparece desde a linguagem utilizada pela plataforma — que substitui o tradicional “match” por “chamego”, expressão associada à ideia de carinho — até o design, desenvolvido pela sócia Bárbara Brito e inspirado na estética afro-brasileira.
A estratégia também está presente na moderação, que considera racismo e fetichização como formas de violência, e no algoritmo de recomendação, desenvolvido a partir das decisões e necessidades identificadas pela própria empresa.
“Construir um espaço de relacionamento para a população negra significa tratar essa experiência como premissa de projeto, e não como público-alvo de campanha. Isso muda a linguagem, o design, a moderação e, principalmente, o algoritmo, que é o coração de qualquer aplicativo de relacionamento”, afirma Fillipe Dornelas, fundador do Denga Love.
A dimensão do mercado ajuda a explicar a oportunidade identificada pela empresa. Segundo o Censo 2022 do IBGE, pretos e pardos representam 55,5% da população brasileira. Para o Denga Love, porém, o potencial vai além do tamanho da população: está também na demanda por ambientes digitais nos quais os usuários possam se reconhecer culturalmente e estabelecer conexões sem precisar negociar constantemente aspectos relacionados à própria identidade.
A empresa afirma ter mais de 400 mil contas na plataforma e já contabiliza milhares de casais formados. Segundo Fillipe, mais de 50 crianças nasceram a partir de relacionamentos iniciados no aplicativo. Os dados de comportamento dos usuários também passaram a ser utilizados como uma ferramenta de desenvolvimento do próprio negócio.
Ao analisar informações de forma agregada e anonimizada, dentro dos parâmetros estabelecidos pela Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), a empresa identifica padrões relacionados à construção dos perfis, quantidade de fotos, frequência de uso e comportamento dos usuários. A intenção é transformar parte desse conhecimento em um produto editorial próprio, devolvendo à comunidade informações produzidas a partir da experiência dentro da plataforma.
A proposta de pertencimento também amplia o conceito tradicional de aplicativo de relacionamento. De acordo com a empresa, uma parcela relevante dos usuários declara buscar amizade e conexão com pessoas semelhantes, e não necessariamente um relacionamento amoroso. O comportamento é especialmente percebido entre pessoas que mudaram de cidade e precisam reconstruir sua rede social, além de usuários que encontram no aplicativo oportunidades de conexões profissionais e grupos organizados pela própria comunidade.
“O par romântico é uma das formas de conexão, mas não é a única. Temos usuários que chegam buscando amizade, novas relações sociais e até conexões profissionais. Foi um comportamento que nos fez repensar o próprio roadmap do produto e entender que existe uma demanda maior por pessoas com repertórios e experiências semelhantes”, explica Fillipe.
Esse conceito também está sendo levado para fora do aplicativo. O Denga Love mantém iniciativas como o Denga Sessions, evento musical que terá próxima edição no Recife, com participação de Bela Maria e DJ Davs Carter, além de um podcast próprio voltado a temas como cultura e afeto. A empresa também trabalha com uma rede de criadores e embaixadores que produz conteúdo em parceria com a marca.
Para o negócio, a construção de comunidade tem impacto direto na estratégia de crescimento. A empresa afirma que indicação e presença cultural ajudam a reduzir a dependência de mídia paga para aquisição de novos usuários, criando uma dinâmica na qual a própria comunidade participa da expansão da plataforma.
Outro indicador acompanhado pelo Denga Love é a permanência dos usuários depois de atingido o objetivo inicial de encontrar um parceiro. Parte deles continua ativa nas redes sociais, participa dos eventos e acompanha conteúdos e produtos indicados pela marca. Esse comportamento altera uma lógica comum no setor de relacionamento digital, no qual o sucesso costuma estar associado à saída do usuário após a formação de um casal.
O próximo passo da empresa é ampliar sua atuação para além do aplicativo. O modelo de negócios já combina receitas de assinaturas, compras dentro da plataforma e parcerias com marcas, enquanto a companhia estrutura uma frente de pesquisa baseada em dados agregados da própria plataforma e informações públicas.
A ambição também é internacional. O Denga Love identifica oportunidades em mercados com grandes comunidades negras, como Estados Unidos, Colômbia, Inglaterra e Angola. A estratégia é posicionar a experiência desenvolvida no Brasil não como um produto de nicho, mas como uma categoria com potencial de escala global.
É nesse cenário que entra a rodada de investimento atualmente estruturada pela empresa. O objetivo é ampliar a operação, fortalecer as diferentes frentes do negócio e acelerar a expansão da plataforma e de sua comunidade. Para o Denga Love, a combinação entre tecnologia, cultura, dados e relacionamento pode transformar um aplicativo criado para conectar pessoas em uma infraestrutura de afeto voltada à população negra.








